Quarta-feira, Setembro 24, 2008

Mudança de casa

Depois de algumas "guerrinhas de edição" aqui no Blogger, decidi ir espreitar o Wordpress.

Fiquei impressionado pela facilidade de utilização e comodidade - do ponto de vista de quem escreve, espero que quem lê também concorde.

Por, é oficial: estou a acabar a mudança do blog para Sublegelibertas.wordpress.com.

Espero que gostem da mudança e, se não, favor fazer sugestões...

Abraços e até ali à "porta do lado"

Realidades de papel

"It is becoming clear that Bernanke simply does not get it. Just as he once thought subprime was contained, and has continued to misread the nature and trajectory of the credit crisis, so too he has said that there is a way out of it that involves little or no cost in terms of growth. I'll be charitable and assume he is deluded rather than being dishonest. "
Yves Smith, Naked Capitalism

A senhora citada acima não é estranha a Wall Street. É uma antiga "banqueira de investimento", no ramo desde 1980, com o curso tirado em Harvard. O Naked Capitalism é um dos melhores blogs financeiros da praça (para mim uma "leitura" matinal e aconselho vivamente aos mais interessados nestas matérias que passem por lá para melhor compreenderem o que se passou e o que se está a passar). 
A frase acima citada, ecoa um sentimento partilhado por vários bloggers financeiros de referência (Brad Setser, Barry Ritholtz,...), economistas que viram a crise a aparecer em 2005 (Nouriel Roubini, Keneth Rogoff,...) ou mesmo Bill Poole (Ex-Governador da Reserva Federal de Dallas, que em 2005 avisou que as Goverment Sponsored Enterprises estavam falidas).

"At this juncture, the book is still open on the how the current dislocations in the United States will play out. The precedent found in the aftermath of other episodes suggests that the strains can be quite severe, depending especially on the initial degree of trauma to the financial system (and to some extent, the policy response). The average drop in (real per capita) output growth is over 2 percent, and it typically takes two years to return to trend. For the five most catastrophic cases (which include episodes in Finland, Japan, Norway, Spain and Sweden), the drop in annual output growth from peak to trough is over 5 percent, and growth remained well below pre-crisis trend even after three years. These more catastrophic cases, of course, mark the boundary that policymakers particularly want to avoid."

O "paper" acima citado não foi feito ontem. Foi feito em Fevereiro deste ano. E ilustra de uma forma razoavelmente simples, inclusivé para "não economistas" ou para "economistas amadores", como esta crise não é diferente. Também ilustra um simples facto que tem de ser admitido de uma vez por todos: 
Não será possível evitar uma recessão nos EUA. Esta é alias necessária. Os EUA estão hoje demasiado endividados ao exterior, com uma posição externa insustentável. A única razão pela qual o dólar ainda não cavou um buraco até ao outro lado do planeta (desculpem-me a expressão) é o seu (ainda) estatuto de moeda de reserva, o que, em português corrente significa que os bancos centrais à volta do mundo têm suportado aquela dívida e aquela moeda.

Não estamos a falar de trocos. Só no último ano, os bancos centrais dos países do Golfo Pérsico, União Europeia, China e Japão, mantiveram o "motor de crédito norte-americano" a funcionar. Esta foi a única razão, não a política da Reserva Federal. Os dados são públicos (Flow of Funds Data) e mostram que os EUA têm qualquer coisa como 16 biliões de dólares de divida privada. O que os bancos centrais do resto do mundo na prática têm feito é emprestar dinheiro ao consumidor norte-americano para pagar os juros deste ano (no que Brad Setser, ex-economista do Tesouro Norte-Americano e do FMI, durante a crise asiática, chama de "quiet bailout"). Ao todo, só este ano, o resto do mundo "emprestou" 1000 dólares a cada americano para este servir a sua dívida e manter os mercados de crédito a funcionar.
A única forma de resolver a situação de forma definitiva é aumentar a poupança (e reduzir divida constitui um acto de aumento de poupança) e a única forma é reduzir o consumo. Uma recessão é não só inevitável, como desejável. Não há "boas" soluções para este problema. 

Agora, vamos ser honestos aqui: o recente plano da Reserva Federal é, no minimo, ingénuo. A Reserva Federal quer dar (estão a ler bem, dar) 700 mil milhões de dólares a Wall Street. Para quem têm dúvidas, leiam este post que escrevi sobre o plano, opinião partilhada cada vez por mais pessoas, senadores incluidos. Surge uma pergunta lógica: 
Estará o resto do mundo, leia-se bancos centrais, dispostos a financiar? A verdade é que esta matéria - financiamento dos EUA à custa das reservas de cada país - começa a ser cada vez mais criticada em países como a China e o Japão. E mesmo que estejam, estamos a falar de mais 2000 dólares por americano, em cima dos já 1000 dólares já "entregues". Alguém é ingénuo o suficiente ao ponto de pensar que a taxa de juro exigida não vai subir? 
Não se esqueçam que a taxa juro "indexante" por terras de Tio Sam é a maturidade longa acima de 10 anos - OT a 10 anos e a 30 anos - ao contrário de, por exemplo, a maioria das hipotecas em Portugal.

O erro de Bernanke é a solução que ele, académicamente, acredita ser a melhor. Para ele, o erro japonês foi não ter sido agressivo o suficiente no corte de taxas de juro o mais rápido possível e no auxilio aos balanços bancários. Fora as considerações de risco moral, este raciocinio tem um erro fundamental (sim, estou a arrogar-me ao direito de dizer que um doutorado está errado!): esta crise é uma de desalavancagem (tal como no Japão, entre outras crises semelhantes) e nestas condições o problema não é induzir o consumidor a consumir a crédito - já de si uma aventura perigosa que foi a principal causa deste problema. O problema é induzir os bancos a emprestar. E estes não têm essa capacidade. Toda a liquidez "oferecida" pela Fed (a contagem já vai em 800 mil milhões, e se juntarmos os 700 mil milhões, fazemos 10 por cento da economia norte-americana) é totalmente absorvida por um buraco negro. Outra questão essencial é que, a resposta depois dos anos 30 também não se aplica:
1. Foi feita depois dos activos corrigirem, habitação incluida, algo que ainda não aconteceu nos EUA - o imobiliário ainda está 25 por cento acima da média que devia;
2. Na altura os EUA não tinham a moeda de reserva, pelo que a subsequente desvalorização do dólar não era "inflaccionária" pelo lado as importações.

A politica actual da Fed não tem feito nada para ajudar o norte-americano. Muito pelo contrário, colocou-o numa situação ainda pior. Então qual deveria ser a solução adoptada? Antes demais admitir que não é possivel "evitar a bala da recessão". Esta é, inclusivamente, necessária de modo a reconstituir a poupança. Simplesmente, os americanos consomem demais.

E sobre Wall Street? Aqui fica a minha sugestão:
Temos três problemas básicos aqui em funcionamento - alavancagem excessiva, promovida pelas taxas de juro baixas dos últimos 20 anos e dando origem a empresas "grandes demais para falhar", mercado imobiliário a corrigir e o mercado de Credit Default Swaps.
Antes demais, identificar as empresas "grandes demais para falhar", algo que não é muito dificil de avaliar. Recapitalizar as instituições trocando capital próprio (acções) pelo dinheiro dos contribuintes (a usar a solução "bailout", ao menos que se faça como deve de ser). Podem colocar a questão - tal como Bernanke colocou no Senado, ontem - de que os bancos não vão querer participar. Desculpem meus caros mas, neste caso, não devem ter escolha!
Os accionistas actuais seriam "eliminados" (ou seja, o valor de mercado da empresa seria transferido para o balanço da empresa, recapitalizando-a). Em alternativa, para não ser muito mau, podem dar aos accionistas "deep out of the money warrants" (basicamente, para leigos: opções de compra futura de acções com o preço muito afastado do preço actual, de modo a dar incentivos aos accionistas e gestores, de modo a recuperar o dinheiro, a portarem-se bem). A dívida necessita, obviamente de ser reestruturada. Junior Debt apanha com uma "corte de cabelo" profundo (chama-se na giria "debt haircut", ou seja, divida que vale hoje 100, é cortada, e passa a valer 80, seria um "hair cut" de 20 por cento). Isto porque os obrigacionistas também têm que aprender uma coisa: risco pagasse e due dilligence é essencial.
Senior Debt (a primeira na linha de "pedidos" em caso de falencia) também é reestruturada: Secured Senior Debt deixa de ser Secured (ou seja, deixa de ter um "hipoteca" sobre o balanço). 

Este processo tem duas consequências: permite que empresas alavancadas em ratios de 1 para 40, se recapitalizem (à força, admita-se) e desalavanquem para ratios próximos do 1 para 4, e torna as obrigações destas empresas mais "inseguras". Isto tem um efeito benéfico: se há coisa que se aprendeu, ou se devia ter aprendido em 1998, foi que instituições demasiado grandes são uma "externalidade negativa" para o sistema. A reestruturação acima tornaria as obrigações de empresas "potencialmente grandes de mais para falhar" demasiado arriscadas, subindo o seu prémio de risco. Seria uma especie de "imposto de mercado sobre o tamanho", limitando o crescimento de futuros "gigantes alavancados".

Sobra uma questão: Credit Default Swaps (CDS). São basicamente seguros sobre créditos, mas infelizmente são transaccionadas em Over The Counter - mercados não públicos. A questão aqui não é contra mercados OTC, mas sim tamanho. Muitos produtos quando passam de determinado tamanho, deixam de ser OTC. 
O mercado de CDS hoje vale 62 biliões de dólares (por comparação, o PIB mundial vale 55 biliões de dólares e o crédito total vale 31 biliões de dólares, logo algo vai mal aqui). O problema, além do tamanho é, dado que é OTC, não há "backoffice" centralizado. Ou seja, ninguém sabe quem deve o quê a quem. Obviamente que quando uma empresa grande cai, ninguém sabe quem tem de pagar o "seguro", a Credit Default Swap, logo dão-se desvios sistémicos.
É preciso pegar neste mercado, traze-lo a público, fazer a reconciliação de ordens - ver quem deve o quê a quem - e recolocar o mercado a funcionar...

O resto (descer juros para evitar recessão, dar isto e aquilo a pessoa A ou B) é pura desonestidade... ou em português mais corrente, "venda de banha da cobra"

Terça-feira, Setembro 23, 2008

Favor aprender a fazer contas!

Preços de venda dos combustíveis
Presidente da Autoridade da Concorrência vai ser ouvido no Parlamento 
23.09.2008 - 17h10 Lusa
A Comissão de Assuntos Económicos da Assembleia da República aprovou hoje por unanimidade a audição urgente do presidente da Autoridade da Concorrência, Manuel Sebastião, pedida pelo PSD, sobre os preços de venda dos combustíveis ao público.

PSD anunciou na quarta-feira da semana passada o pedido de audição urgente do presidente da Autoridade da Concorrência e o requerimento foi hoje aprovado por todos os partidos na Comissão de Assuntos Económicos, faltando marcar a data da audição. 

No requerimento, o PSD referia não se verificar "por parte das gasolineiras um acompanhamento da tendência mundial da descida do preço do petróleo, cujo valor actual é cerca de 50 por cento inferior ao registado há cinco meses". 

Os sociais-democratas pediram por isso "uma nova reunião com o regulador de forma a compreender as razões que explicam tanta demora da reflexão no mercado nacional da actual tendência internacional".


Adorava que alguém me esclarecesse com que calculadora anda a bancada parlamentar do PSD a fazer contas (!!).

Máximo do crude: 147 USD
Mínimo do crude: 91 USD
Variação: -38.1 por cento
Máximo do euro na mesma altura: 1.60
Valor actual do euro no mínimo: 1.40
Variação: -12.5 por cento
Máximo do crude em euros: 91 Euros
Mínimo do crude em euros: 65 Euros
Variação para Portugal tendo em conta variação cambial: -28.5 por cento.

Se alguém me conseguir explicar de onde vieram aqueles 50 por cento, pago-lhe um almoço! 
Além da explicação obvia: de 100 para 150 são 50 por cento, de 150 para 100 são outros 50 por cento. Não são! São 33 por cento e isto não devia ser admitido nem a um aluno do 9ºano (estou a ser simpático)

Regular o que não se deve...

Que houve falhas de regulação no caminho para esta crise isso é evidente. Mas não sei se não se está a colocar a tónica na falha errada (desregulação). A verdade é que muita regulação vigente foi (bastante) mal construída.

Começando pelo Glass-Steagall Act, parcialmente repudiado em 1999 pelo Gramm-Leach-Bliley Act, no que diz respeito à exigência da divisão de facto entre banca comercial e banca de investimento. Eu não diria que esta - o fim do Glass-Steagall Act - é a causa do actual descalabro. Muito pelo contrário. Passo a explicar:
A divisão clara que era obrigatória pelo Glass-Steagall Act cria, na minha opinião, uma acrescida pró-ciclicidade no balanço dum banco. E aqui discordo profundamente do que dizem: o modelo que ruiu não foi aquele previsto num mundo sem "Glass-Steagall" (um mundo de "Broad Banking") mas sim um mundo em que este estaria ainda em vigor: o mundo do Banco de Investimento independente. Foram exactamente esses que falharam, e os dois que sobraram foram no fim de semana, rapidamente passados a "banking holding".
Reparem bem nas diferenças entre a UE e os EUA: o modelo de Wall Street era exactamente único a Wall Street. Não existem na Europa Bancos de Investimento "independentes", mas sim, divisões de Banca de Investimento 
integradas numa holding bancária "tradicional". Os problemas do Barclays, RBS, Deutsche Bank, UBS e HSBC, foram as suas divisões de investimento. A Europa é um mundo bancário sem "Glass-Steagall".

E se pararmos 2 segundos - e nos afastarmos desta guerra preto-branco, socialistas-libertários - vemos que a separação entre um e outro - o modelo que morreu no fim de semana em Wall Street - é mau para o sistema. Uma divisão de investimento tem um aumento de fluxo de caixa - estou a simplificar - em épocas de crescimento. Mas em épocas de abrandamento, as pessoas tendem a tirar o dinheiro de investimentos e colocar nas suas contas à ordem e a prazo. Logo isoladamente os balanços são prociclicos, mas são-no em épocas diferentes: em Bull ganha o banco de investimento, em Bear ganha o banco a retalho, para simplificar. Torna-se então obvio: a separação dos dois aumenta o risco. O Broad Banking reduz o risco no balanço agregado. E veja-se a europa: a UBS safou-se, enquanto banco, porque a sua divisão de investimento teve "onde cair" - são os maiores wealth managers do mundo. O Deutsche Bank idem idem aspas aspas. Por contraponto, a Bear Stearns e a Lehman Brothers não tinham onde cair. Globalmente, eram pró-ciclicos, mas separados de uma unidade comercial: tal como estipulado pelo Glass-Steagall, embora já não em vigor.

Mas note-se também que a culpa do subprime não morre solteira em Wall Street, no que diz respeito ao Subprime. E se ninguém contesta o efeito (nocivo) da politica do Sr. Allan Greenspan (um dos pais desta alhada), frequentemente esquecemo-nos que Wall Street não criou o motor do subprime unica e exclusivamente por ganancia:

O Carter assinou o  Community Reinvestment Act que proibia os bancos de restringirem as suas ofertas de crédito a segmentos seguros e obrigando-os a alargarem-no ás chamadas «minorias», de mais elevado risco;

Clinton segue e alargou significativamente a base  do CRA, baixando significativamente os requisitos para se obter empréstimos, possiblitando e incentivando a concessão de emprestimos imobliários;

O Bush "filho" aprovou o The American Dream Downpayment Initiative que visava apoiar financeiramente a compra de casa por quem não reunia as condições para a obtenção de um empréstimo imobiliário, pretendendo, em cinco anos «criar 5 novos milhões de proprietários».

Por muito nobres e bem intencionados que foram (ou talvez, simplesmente eleitoralistas e populistas), esqueceram-se duma regra básica: risco pagasse! Mas na impossibilidade de "cobrar" esse prémio de risco, surgiu uma invenção: o modelo originação e distribuição. A culpa não morre mesmo solteira aqui.

No entanto concedo que falhou uma regulação: ainda estou para perceber por que raio as Credit Default Swaps ainda são OTC. Não me confundam, acho que um mercado OTC (desregulado, como OPEX, em Portugal) é extremamente útil. Permite a empresas pequenas financiarem-se e terem acesso a capital que de outra forma não teriam. O problema é tamanho. E isso vesse: quando uma empresa adquire tamanho > n, passa para mercado "normal", passo a expressão, saindo de OTC. Isto faz sentido: size matters, os mercados são sistemas complexos, e como tal adquirem assimetrias de informação. Essas assimetrias devem ser combatidas, sob pena de "destruirem" o mercado (selecção adversa, problema principal-agente). O que eu não entendo é como é que se deixou que as Credit Default Swaps - um instrumento válido e com sentido - ganhassem o tamanho que ganharam 
permanecendo em OTC. Não há informação, logo o mercado "treme" sempre com a possibilidade de um unwind de CDS com uma grande falencia. Ninguém sabe quem deverá o que a quem... e aqui, os reguladores falharam de uma forma muito grave!

Sábado, Setembro 20, 2008

Como retirar uma porca da engrenagem...

Nada é mais destrutivo que um político em pânico. Isto é especialmente verdade em ano de eleições!

Embora concorde que, por vezes, a psique humana se sobrepõe – parcial ou totalmente – aos fundamentais, o que se passou ontem é grave e altera fundamentalmente essa premissa de análise.
Vamos lá ver as reais implicações da já famosa “proibição ao short selling”, anunciada pela Securities and Exchange Commission (SEC), o regulador do mercado bolsista norte-americano.
Ao contrário do que circula por aí, o short selling não só não é mau, como é uma peça essencial neste processo que é o mercado. Da mesma forma que quem considera uma acção subavaliada pode “comprar” essa acção, exercendo pressão conjunta para “alinhar” o preço actual com um “justo” (por justo, entenda-se, ditado pela força do mercado), o mesmo raciocínio aplica-se ao short selling. Mais grave ainda, o short selling é a principal ferramenta para redução da “assimetria” num mercado. Se toda a gente apenas executar compras, os preços tornam-se bolhas. Também é uma parte essencial no processo de arbitragem entre acções de vários mercados: por exemplo, empresas cotadas ao mesmo tempo na Europa e nos EUA. “Shorta-se uma, compra-se a outra” é o mecanismo que mantém as acções com o mesmo “valor”, e é isto que se chama arbitragem.

Short selling é também um dos principais mecanismos de redução de risco num portfólio. Se a alguns isto não parecer fazer sentido, pensem no seguinte: imaginem que vocês consideram que as empresas do S&P500 estão saudáveis (não estou a fazer considerações sobre se estão ou não... o ponto é o processo), mas não têm confiança nenhuma nos bancos. Imaginem que vocês querem ter exposição ao índice – não tendo carteira para comprar as 500 acções. Compram o CFD ou o ETF. Mas não vos faz sentir muito bem saber que 30% – proporção das financeiras nos resultados totais do S&P500 – daquilo é potencial downside de bancos (outra vez, não estou a fazer considerações que sim ou que não). Então “shortam” bancos, ou melhor ainda, “shortam” o índice/ETF dos bancos, na proporção de 1/3 da vossa posição.
Assim, vocês têm um portfólio imunizado ao sector bancário, mas sujeito aos movimentos das restantes empresas. Note-se que, muito poucos investidores são “short sellers” puros, mesmo os hedge funds. Isto porque, enquanto que em long o limite é +infinito, em short o limite é +100% (abaixo de zero não vão, como é óbvio). O short selling é usado como imunização e cobertura de risco por 90% do mercado com volume. É, alias, uma actividade mais perigosa devido a squeezes. Bem, esta ferramenta acabou de desaparecer...

Mas mais grave ainda são as consequências para o mercado de opções.
Opções são um dos derivados mais importantes, a par dos futuros. Dão-vos o direito, mas não a obrigação, de comprar ou vender um activo a preço x, em época y. Dão-vos certeza num ambiente de incerteza. A liquidez primária é market makers e especuladores que tomam a posição contrária. Mas mesmo a “especulação” é bastante mortal (mais mortal que forex). Quem negoceia warrants (ou como eu, já negociou) sabe: 99% morre sem valor, ou apanham com grandes perdas.
O mercado de opções também é uma enorme fonte de informação. O famoso VIX é calculado a partir da volatilidade implícita das options sobre o S&P500. Mede o prémio pago nas puts (opções de venda, onde quanto maior a volatilidade, maior o preço a pagar pela protecção), pelo que é a medida por excelência de risco. Muitas probabilidades, preços e medidas de risco são extraídas dos preços e volatilidades implícitas das opções. O problema aqui é que, de modo ao mercado de opções operar correctamente é condição necessária haver short selling! Passo a explicar: quando vocês querem protecção, o market maker tem que fazer um hedge ao seu “livro de ordens”. Se não o fizer, ele tem de vos cobrar um prémio mais elevado, tornando a protecção mais cara e, por consequência, tornando o mercado mais arriscado. A forma pela qual ele, market maker, faz isto é via short selling da acção subjacente.

 É por isso que as “protecções” têm preços razoáveis.Se não existir short selling, além de secar a liquidez no mercado (pensem no mercado de warrants em Portugal, para terem uma ideia de um mercado de options não líquido e manipulável), introduz prémios mais elevados nas puts. Pela put-call parity (uma put pode ser convertida numa call, uma opção de compra, e vice versa), torna as calls mais caras. No limite, isto pode levar a uma disrupção parcial ou total do mercado de opções, uma peça fundamental na gestão de risco.
E se as pessoas não podem, ou não têm dinheiro para cobrir os seus riscos – seja por não poderem shortar ou pelas puts estarem caras demais –, isso significa que preferem não comprar, dado que o investidor médio é avesso ao risco. E a ausência de compradores também provoca quedas, dado que quem que “oferecer”/vender, tem de ir baixando o preço à procura de alguém!
Uma outra nota importante da ausência de short sellers é que, em quedas, estes são os únicos que estão a comprar. À medida que o preço vai descendo, eles vão profit taking – comprando –, amparando a descida. À medida que esta abranda outros short sellers seguem na cobertura. O short selling tem uma função de “almofada”, almofada essa que não existe neste momento... Esta disrupção poderá significar o fim de muitos fundos, não só long-short hedge funds, mas fundos 130-30 e fundos de arbitragem, cujas contas estão precisamente em bancos importantes como a Goldman Sachs ou a Morgan Stanley (e a última coisa que estas firmas precisam é que fundos de investimento as forcem a encerrá-las).

Uma má ideia nunca vem só


Sobra uma questão, que muitos poderão fazer: os bancos, com isto, não vão descer mais?! Bem, isso não é necessariamente verdade. O problema reside no RTC-II. Para quem não sabe, o RTC-II é o Resolution Trust Corp, versão 2. Versão 2, porque a primeira versão surgiu no final dos anos 80, início dos 90. Quando as Savings & Loans faliram, a FDIC – a “seguradora” dos depósitos – ficou com imensos activos nas mãos. O RTC “original” serviu para vender esses activos no mercado aberto, e recuperar algum dinheiro perdido pelos contribuintes.


O problema aqui é que, embora tenha o mesmo nome – ao que parece vai ter, ainda não está confirmado –, é fundamentalmente diferente.
No último trimestre de 2007 surgiu a ideia do MLEC, também conhecido como “Super SIV”. Na altura em que o mercado de papel comercial falhou, pensou-se em criar um super fundo para armazenar o papel que o mercado não queria – ou pelo qual não estava disposto a pagar um preço alto. Note-se que este papel caiu, não por influência de “short sellers”, mas sim pela ausência total de compradores, forçando os “market makers” a anunciar bids sucessivamente mais baixos, de modo a descobrir alguém disposto a comprar.

A ideia falhou por duas razões fundamentais.
1• Os potenciais vendedores queriam “preços justos” – justos para os seus balanços, entenda-se;
2• Os potenciais compradores não estavam dispostos a oferecer “preços justos”, pois consideravam que estavam a pagar demais por “lixo”.
Ora, o RTC-II é a mesma ideia, mas agora em grande – a proposta de lei prevê um valor total de 700 mil milhões de dólares. E com uma diferença fundamental: desta vez é o contribuinte americano que vai para o “lugar do morto”.


Mas a grande questão nem reside aqui, mas sim no preço dado. Muitos bancos moveram muito deste papel – que já não transacciona – para Level 3 assets, ou seja, mark to model. Isto é uma grande palavra para “cria-se um modelo que dê o preço que nós queremos que isto valha”. Muitos bancos têm mais “dinheiro” aqui do que na conta de capital próprio dos seus balanços (a Goldman Sachs e a Morgan Stanley, por exemplo, estão nesta situação, entre outros). A desculpa, autorizada pelos reguladores, é “não existirem preços públicos”. Ora, o RTC-II divulgaria um preço “público”, e forçaria perdas nesta parte do balanço. A única maneira de evitar este cenário era não divulgar o preço das “compras” do RTC-II. Mas isto constitui dois problemas adicionais.
Em primeiro lugar, a confiança no sistema. Isto é, o “livro de regras do Japão”; e todos sabemos como essa feliz história acabou, com uma pequena diferença: o Japão tinha 30% de taxa de poupança. Os EUA são dependentes de “financiamento externo” e, em última análise, do seu Rating AAA

Ou melhor, da percepção do seu rating, porque mesmo que não o alterem, alguém julga que os investidores não vão exigir maiores prémios de risco, depois de medidas dignas de países como a Rússia, o Paquistão ou a Venezuela?


Em segundo lugar, não divulgando os preços, o RTC-II terá obrigatoriamente de exigir posições accionistas em troca (há mesmo quem argumente que isto acontecerá de qualquer maneira, porque os bancos serão descapitalizados pelas recentes medidas tomadas). Ora, isto significa uma coisa: diluição dos actuais accionistas. E para os que estão a pensar “diluição” pensem “preço desce”. Lembrem-se dos aumentos de capital dos bancos britânicos e o efeito no preço das acções dos mesmos, que desceram porque foram diluídas. A única diferença aqui é que o “subscritor” é o Estado.
E não se esqueçam que não há ninguém para amparar a queda, fazendo profit taking durante essa diluição, e as puts estão mais caras, pelo que a percepção de risco aqui irá ser maior, criando um efeito bola de neve no aumento do prémio de risco norte-americano.
É por tudo isto que, fazer contas ao fim da crise ou ao fim das descidas na bolsa, neste momento, é um exercício de “leitura de folhas de chá”, ou futurologia educada. O dólar estará sobre pressão, apenas com os bancos centrais do mundo como suporte, o mercado de opções pode ter disrupções, os hedge funds podem liquidar, preços podem ser descobertos...


O que se fez e anunciou sexta-feira, atrevo-me a dizer que ficará para a história como um dos maiores erros de intervenção, a par da descida até 1% por parte de Greenspan, ou a política japonesa durante a crise deles.
No entanto, espero, honestamente, estar profundamente errado!

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Comentário a Miguel Frasquilho

O seguinte post é o comentário que deixei ao segunte post do 4R - Quarta República:

"Caro Dr. Miguel Frasquilho,

 

Tenho o maior respeito intelectual por si, mas não posso concordar com as suas afirmações neste post, onde argumenta que a politica monetária actual do BCE é incorrecta, em oposição à política correcta da Reserva Federal (Fed).

 

Antes demais, se é verdade que os preços do crude WTI e Brent desceram bastantes desde os máximos, estando hoje abaixo dos 100 USD/barril – fruto da redução de quase 3 milhºões de barris/dia no consumo mundial no 1º Semestre de 2008 – e que Trichet sempre frisou a sua preocupação pelo efeito que o aumento de 2007 teria sobre a inflação da UE, a tónica do BCE, em todas as conferencias de imprensa recentes, foi sempre nas “expectativas de inflação” e nos “efeitos de segunda ordem”.

 

Trichet tem dito, quase até à exaustão, que o que o preocupa – correctamente na minha humilde opinião – é as “expectativas de inflação” que se entrenham no sistema via mercado obrigacionista – premios das obrigações de longo prazo. Alias, é conhecida a história dos anos 70 nos EUA: o problema eram as expectativas de inflação futura, que estavam de tal forma entranhadas na mente das pessoas, que a única forma de sair do problema foi aumentar a taxa Fed Funds para níveis a dois digitos e induzir uma recessão.

Não nos esqueçamos, em perfeita honestidade, um facto por demais referido pelo Sr. Trichet e que poucos poderão contestar: O mercado laboral europeu é muito mais rigido que o americano. A força dos sindicatos e da contratação colectiva faz-se sentir de forma mais alargada, e as renegociações salariais “indexadas” à inflação, embora que não de forma explicita, introduzem um mecanismo de espiral inflacionária que qualquer economista sabe e reconhece: os conhecidos “efeitos de segunda ordem”, que o BCE tem vindo a alertar, desde às uns largos meses a esta data.

 

É preciso também dar a cada um o seu: o primeiro banco a intervir em Agosto de 2007 – quando dois fundos da extinta Bear Stearns “implodiram”, dando começo à “crise do subprime” – foi o BCE, não a Fed. Alias, o BCE um ano antes tinha conduzido uma “simulação de preparação” – os mais militaristas podem chamar-lhe de “jogos de guerra” – vendo as possiveis reacções a uma crise “imaginária”, curiosamente (coincidencia) com os mesmo contornos da que se viria a desenrolar em Agosto do último ano.

 

Também é preciso referir que, até à data, todas as acções de politica monetária da Fed, além de altamente criticadas por alguns sectores do lado de lá do Atlântico – e não me refiro apenas ao libertário congressista Ron Paul – poucos efeitos produziram.

 

Por exemplo, e de forma algo privisivel e prevista por alguns analistas/ comentadores/ intervenientes no mercado, as taxas de juro das hipotecas pouco ou nada se alteraram. Uma hipoteca a 30 anos continua com taxas de juro de 5.81 por cento – valor actualizado à hora a que escrevo – perto do máximo de 1 ano. E não nos esqueçamos dum facto: a larga maioria das hipotecas nos EUA estão indexadas a maturidades acima dos 15 anos, não estão nas maturidades curtas, como por exemplo, em Portugal.

 

As taxas do mercado monetário também estão bem acima da taxa de referencia, um claro indicio de que a politica monetária seguida, em pouco ou nada ajudou. E mais importante, à altura desta escrita, a obrigação a 1 mês – que por norma se encontra próxima da taxa central – está neste momento com uma taxa de juro 0.30%, depois de ter estado durante o inicio da tarde “alegremente” nos 0.03%. Relembre-se a quem não é de Economia que a Fed baixa as taxas de juro “comprando” T-Bills no mercado (via a Fed de Nova Iorque), mas que se essa taxa estiver abaixo da sua, então não tem espaço para baixar as taxas. A estes niveis a condução de politica monetária torna-se ineficaz.

Também note-se que hoje a Fed foi autorizada a expandir o seu balanço em 40 mil milhões de dólares, no que se traduz na “impressão de notas”, factor inflaccionário, como sabe tão bem como eu.

 

E se, pelo lado do ajudar o consumidor endividado norte-americano o efeito foi próximo do zero, o mesmo não se pode dizer sobre o Dolar. E dado estatuto de reserva dessa moeda, a consequência prática foi um (dizem alguns, expectável dada a politica seguida pela Fed) aumento da inflação. A não ser que se acredite nos dados dos últimos três trimestres de PIB americano, com um deflator de preços a rondar os 1%, uma brincadeira matemática engraçada para esconder o que todo o americano já sente: uma recessão.

 

A Poltica da Fed tem sido tão boa, ou tão má, que as Credit Default Swaps (para quem não é economista – seguros sobre obrigações, o preço mede o risco percepcionado pelo mercado) sobre os EUA está a 0,30% - o dobro de países como Finlandia ou Austria. É curioso no entanto que dois países sob a egide monetária do BCE – Alemanha e França – são hoje considerados a par do Japão, os mais seguros do mundo.

 

Já para não mencionar o dobrar das regras como, permitir que os bancos usem depósitos para financiar as suas divisões de investimento, ou que possam financiar em mais de 10% as suas filiais ou, aceitar como colateral para empréstimos de liquidez todo o tipo de activos abaixo de investment grade (abaixo de rating AAA para os não economistas), tornando o balanço da Fed num autentico “show de terror” (também conhecido com “armazém de lixo tóxico).

 

No que diz respeito à recessão americana versus recessão europeia: que vamos ter uma, ninguém contesta. Agora, argumentar que a deles vai ser melhor é no minimo falacioso. Estamos a falar de um país com 0% poupança, sobre endividado ao resto do mundo, com deficits gemeos. E a verdade é que a actual politica da Fed conduziu a maiores taxas de juro – seja nos EUA, seja no exterior a emprestar aos EUA, com um maior premio de risco. Estamos longe do fundo na habitação, os inventários de casas não vendidas estão em máximos históricos.

Do lado europeu, embora com problemas – em especial o “Clube Med”, cuja responsabilidade económica e fiscal foi próxima de nula – a verdade é que:

  1. Os problemas no sector bancário estão a ser resolvidos pelo BCE com injecções de liquidez (o que não quer dizer que o BCE não tenha razão quando afirmou na última reunião que não está disposta a aceitar “lixo” como colateral, ao contrário da Fed),
  2. Taxas de juro a 4% quando a headline inflation está a 3,8% não é uma politica restritiva,
  3. Os dados vindos da Alemanha este mês indicaram um abrandamento muito menor que o esperado.

 

Existe também um ponto onde discordo totalmente consigo: a utilização de taxas de juro para impedir recessões. Isso seria o equivalente a fazer um contra fogo com Napalm, no meio do pinhal de Leiria.

 

Na minha humilde opinião,  a questão central numa recessão é a dor que implica.

Os agentes (alias, os seres humanos) só aprendem com os erros, quando estes inflingem dor. Senão, estamos a reforçar o processo mental do erro - psicologia 101: o cerebro é preguiçoso e reforça actos repetitivos se não vir mostras de falha no processo - falha essa que é tomada visivel ao mesmo pela via DOR (não me estou a refirir a dor fisica ou ir parar debaixo da ponte, obviamente).

É o mesmo com a poupança: as pessoas só aprendem a poupar "depois" de passarem dificuldades e se virem forçados a reavaliar as suas prioridades – algo que por exemplo em Portugal estão um pouco... trocadas.

É exactamente por a Economia ser feita de pessoas que o processo de transmissão de dor (vulgo, recessão) não deve ser evitado (embora deva ser minimizado... subsidio de desemprego é sempre preciso, ninguém quer ver pessoas debaixo da ponte). Se fossem robots bastava programar a taxa de poupança e consumo e deixar um programa fazer o processo de feedback.

 

Alias, despejar dinheiro em cima de um problema que começou exactamente por excesso dele é no minimo irresponsável. Vejamos por exemplo a AIG, para quem não percebeu o que se passou:

O problema da AIG, e das seguradoras em geral, é que o business model deles acenta no alinhar de activo e passivo. De forma simplista, temos um stream previsivel de "claims" (seguros a pagar) e temos cash flow na forma de premios. Pegasse nos premios e procurasse activos seguros que dêm um cash flow que seja igual ou semelhante às claims (dai nunca irem à falencia... é o melhor negocio deste planeta). O problema foi que em 2002/2003 as obrigações estavam com taxas de juro enterradas no chão porque Greenspan desceu as taxas até 1% (para impedir a recessão, dirão alguns). Não havia obrigações "seguras" para fazer o match dos passivos e cash flows, logo eles meteram-se em CDOs e MBSs (o que explodiu em agosto) e começaram a emitir seguros sobre obrigações (credit default swaps, um mercado que NÃO devia ser Over The Counter, e aqui temos uma enorme falha de regulação!!!)... o resto é mera consequência.

 

E para quem está a pensar, “então a solução é fazer nada?”:

A alternativa? A ir por uma solução "social" (ou seja, não estando disposto a deixar o mercado corrigir sozinho, o que pode ser "violento", como deixaram na Coreia do Sul) então que se faça como os suecos no inicio dos anos 90 - eles tiveram uma crise semelhante:

1. Todos os bancos foram informados que tinham x dias para revelar TODAS as perdas;

2. Avaliar quem precisa e deve ser salvo e quem deve falhar;

3. Quem é salvo, é "nacionalizado", o dinheiro inserido dos contribuintes torna-se acções, os restantes accionistas são "limpos do mapa";

4. Limpasse a loja, partindo em bocados quem é grande demais;

6. Deixasse o mercado limpar o resto;

5. Voltasse a privatizar - se tudo correr bem o contribuinte ainda acaba a recuperar/ganhar dinheiro, como aconteceu na suécia...

 

Isto aconteceu em 1992, se não estou em erro. Curiosamente não ouvimos falar em bancos suecos no Subprime. 

E não foi preciso sobre-regulamentar os bancos, apenas inflingir dor no processo "de salvamento". Não se devem dobrar as regras. Não se deve distorcer as normais decisões de investimento e poupança. A salvar, não se devem enfraquecer as instituições mais fortes para impedir que as mais fracas falhem - senão arriscaste ao fenómeno japonês: de 94 a 96 forçaram casamentos, em 97 aperceberam-se que já não havia instituições "fortes" e que tinham enfraquecido o sistema no processo - e os fortes casados tornaram-se grandes demais para falhar. O sistema teve de ser salvo por inteiro. 15 anos de "estagnação" e taxas a zero por cento foi o preço do erro (e é publico que eles admitem que foi um erro!).

 

Por tudo isto, eu pertenço aos (poucos) que afirmam: Graças a Deus que neste momento temos alguém com coragem à frente do BCE!!"

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Afinal a culpa é dos especuladores? (II)

Normalmente, depois de alguma explicação sobre o preço dos combustiveis, a resposta costuma ficar algures entre "uma bolha é uma bolha" e o "a oferta da OPEC tem respondido à procura" passando pelo "existe hoje tanto petroleo como à 35 anos atrás". Logo, o preço actual deve ser seguramente "especulação" do "grande capital" e das "grandes petroliferas"...

Paremos dois segundos antes de nos atirarmos à goela do "grande capital" para observar a produção mundial de crude. Actualmente esta está nos 85 Milhões de Barris por dia, mas é preciso não esquecer que à medida que este vai sendo extraído, os poços perdem produtividade - por exemplo por menor pressão dentro do mesmo. Esta perda de produtividade é, em média, cerca de 4,5% da produção.

Isto significa que só para manter a produção constante, tem de ser colocados em operação novos poços capazes de compensar esta perda de produtividade. Colocando a coisa de outra forma: para manter a produção constante é preciso todos os anos, novos poços que debitem um total de 3.8 milhões de barris por dia.

Isto leva-nos a uma "pescadinha de rabo na boca": à medida que aumenta o consumo mundial a oferta mundial de crude tenta acompanhar aumentando a produção, mas isso implica que o valor de novas reservas necessárias para compensar a perda anual de produtivade aumenta também. Num recurso finito - nem precisa de ser escasso - este processo tem invariavelmente um fim: um "planalto" de produção, ou seja, um ponto a partir do qual a produção mundial deixa de subir.

Um segundo problema com a produção actual de crude é uma sigla chata: ERoEI - Energy Return on Energy Invested. Ou seja, qual é o ratio de energia que eu extraí face à energia que eu usei para a extração. Quanto maior o ratio melhor: o objectivo é eu ter o maior valor possivel de "energia liquida", em especial tendo em conta que estou a remar contra uma maré de "4,5% nova produção necessária só para manter as coisas constantes"...

O problema é que nós já usámos a grande maioria dos "bons poços" - do "light sweet crude oil", o facil de refinar - onde o ERoEI era igual ou superior a 100. Por comparação, extração das "areias de alcatrão" do Canadá tem um ERoEI de 5, o que quer dizer que consume-se 20 vezes mais energia a extrair este crude. O ERoEI do ethanol, por exemplo é 1.2. O mesmo se aplica ao crude mais pesado (Sour crude iraniano, Venezuelano, Brasileiro, Saudita, etc) que exige mais energia na extração e refinação. (Daqui virá o argumento para o post seguinte: o facto de também não ser bom para a indústria - Galp, BP e afins - que a energia dispare sem controlo)

Outra questão curiosa é que os países produtores e exportadores estão hoje mais ricos. Por cada 10 USD de súbida do preço do barril, os paises do Golfo ganham mais 57 mil milhões de USD. A Rússia mais 25 mil milhões de USD, 10 mil milhões para o Irão e 8 a 9 mil milhões USD para a Noruega e a Venezuela. Estes países - com a excepção da Noruega - hoje estão mais ricos e têm mais dinheiro para consumir. Regra geral, maior consumo implica maior gasto energético, e isso ocorreu: hoje estes produtores consomem mais energia que à 30 anos atrás, pelo que exportam menos para o resto do mundo.

Isto quer dizer que além do aumento do consumo da OCDE e dos países emergentes como a China, India, Brasil e outros, os países exportadores exportam hoje menos, porque parte da produção "fica em casa". Além do mais, para produzir crude eu consumo hoje mais crude do que consumia à 35 anos atrás. Em cima de isso tudo, tenho que também compensar a perda de produtivade dos poços com 3,8 milhões de novos barris por dia, usando para isso poços novos mais caros de explorar e menos eficientes do ponto de vista energético.

A isto chama-se "Peak Oil", e é a justificação para um facto que (finalmente) se tornou por demais evidente e inegável: a produção mundial não só está num pico como tem estado constante face a uma procura crescente e prevê-se - estimativas optimistas - que a partir de 2012/2015 a produção mundial comece a decrescer...

continuam admirados com crude a mais de 100 USD?

Quarta-feira, Maio 28, 2008

Afinal a culpa é dos especuladores?

Antes de se começar a "pregar especuladores à parede" por supostamente "darem cabo disto tudo", vamos olhar para alguns factores que têm influenciado o mercado de crude:

É verdade que existe alguma especulação no mercado de crude em particular - e commodities em geral - mas é preciso ter algum cuidado quando avaliamos o seu impacto. Em primeiro, temos de distinguir os dois tipos de especuladores presentes no mercado: o "trader" tradicional e o "index replicator".

O trader tradicional não têm grande impacto no preço. Simplesmente toma a contra-parte dos produtores, que na grande maioria estão normalmente "liquido curtos" - dado que produzem X commodity, vão ao mercado, vendem o contrato de futuros do mês que querem e "fixam o seu lucro". Este tipo de especulador é price sensitive, toma o risco que os produtores não querem, e dado que opera longo e curto, fornece liquidez ao mercado. O problema está nos Index replicators. Estes fundos basicamente replicam indices de commodities - como o Goldman Sachs Comm. Index, o AIG Comm. Index ou o Reuters CRB - e alocam grandes quantidades de capital às mesmas. Estamos a falar, por exemplo, de fundos como o Calpers - fundo de pensões da California, o maior do mundo com 200 mil milhões USD sob gestão e que recentemente alocou 2% dos seus activos a este mercado. O mero tamanho destes "meninos" torna-os largamente price insensitive com um problema acrescido: a sua metodologia é buy and hold, ou no caso dos futuros, comprar um contracto e fazer roll over ad eternum no que se chama um calendar spread. Ao todo estes "meninos" contabilizam 250 mil milhões de dólares para cima do mercado de commodities - que encaram como activo financeiro - e dado que são buy and hold não criam liquidez, muito pelo contrário extraiem liquidez do mercado...

Mas se a história acabasse aqui estava tudo muito bem: bastava correr com os especuladores. A questão é que a história não acaba aqui!

O crude oil transaccionado em NY na NYMEX é o West Texas Intermidiate, também conhecido com "light sweet crude oil". Este crude não só é menos denso - logo mais facil de refinar - como tem um baixo nível de "enxofre" baixo - normalmente abaixo dos 0,5%. Apenas 25% da produção mundial é de "light sweet crude", e cerca de 1/2 disso fica em casa - por exemplo a China produz "light sweet crude oil". Por contraste existe o "sour crude oil", mais pesado e com maior percentagem de enxofre - Por exemplo, o Irão produz crude com 2 a 3% de enxofre.

E porquê esta explicação do "enxofre no crude"? Porque nos EUA, Canadá e UE foi implementada regulamentação ambiental que obriga as refinarias a produzirem diesel com baixo teor de enxofre, logo elas preferem o WTI por ser de origem mais baixo. A maquinaria para "retirar" enxofre do "sour crude" é cara, logo a procura por este é inferior - por exemplo o Irão tem super petroleiros no Golfo Persico com "sour crude oil" à espera que alguém compre, a Arabia Saudita está a vender "sour crude oil" com descontos de 11 USD face ao preço do WTI. Isto quer dizer que o efeito "substituição" entre o WTI e o "sour crude" é muito pequeno - cerca de -0.02 de acordo com estudos efectuados. Ao todo o mercado de WTI têm 20 milhões de barris/dia transaccionados.

Traduzindo por miudos: se retirarem 1% do WTI no mercado, os preços têm de subir 25 a 40% para o mercado ajustar. E desta vez não são os "especuladores" que estão a tirar o WTI do mercado, mas sim o Dep. of Energy dos EUA. Em Agosto de 2007 eles reiniciaram o abastecimento das reservas estrategicas de crude - e só pararam agora. Eles comprar sensivelmente 1 barril de WTI por cada 2 de "sour crude". O problema é que o efeito global foi retirar quase 0,8% do mercado de WTI - que tem procura rigida via regulamentação ambiental - ou seja, o "stock pilling" do DoE foi responsável por 15 a 20 USD de súbida.

Infelizmente a história ainda não acaba aqui... algumas companhias aereas - Air France-KLM/Southwest Airlines/... - fizeram "hedge" à subida e conseguiram "fixar o custo à voltas 51 USD/barril". Como? Simples: comprar call options sobre futuros de crude com strike a 51 USD. Ora quem vende a call option tem o risco de, se o preço subir fica a perder dinheiro, pelo que tem de fazer "delta hedging" - neste caso ir ao mercado comprar o subjacente à medida que ele sobe. Isto quer dizer que este "delta hedging" age como um "magnificador" do movimento: quanto mais sobe mais hedging é feito a preços mais altos.

O mesmo aconteceu quando quando os produtores fizeram hedge da produção comprando puts - aqui o raciocinio é o contrario: quem vende a put tem de ir ao mercado vender futuros à medida que o preço desce, o que levou o crude por exemplo aos 51 USD...

Mas, heis que a história AINDA não termina aqui: Inventários privados. As empresas, em especial refinarias e afins, fazem inventários quando isso lhes é rentavél, ou seja o lucro cash and carry - ou seja, comprar spot/vender futuro, ficar com a diferença - é positivo e maior que os custos de financiamento/armazenamento. Ora desde Agosto temos tido um pequeno problema: não só o custo de financiamento de todos os mercados aumento (via venda de 10Year Notes do Governo, injecções das mesmas nos bancos, e o unwind dos hedges às MBS que eram feitos comprando tresurys, e que vão sendo "desfeitos" - aka vendidas - à medida que estas descem de preço, aumentando as taxas de longo prazo) como a taxa de retorno de "Cash and Carry" virou negativa. Logo, o expectavel aconteceu: os inventários começaram a diminuir pelos que em vez de comprar spot e vender futuro, as empresas passaram longas no futuro, puxando o preço para cima...

Depois existe a questão da procura: embora esta tenha sido reduzida na OCDE - grande parte via a relutancia dos paises desenvolvidos em interferir e baixar impostos - o mesmo não acontece nos paises emergentes. A China, por exemplo, tem preços controlados, pelo que a procura manteve-se articifialmente alta face a um aumento NÂO SENTIDO pela China. Embora muitos paises comecem a não ter dinheiro para suportar este "congelamento", a China ainda têm, pelo que a procura está "artificialmente" alta nos mercados emergentes.

E por último: produção. Produzir crude não se resume a descobrir um poço e cavar um buraco no chão. Existe um "lag time" entre a descoberta e a efectiva "operacionalidade do poço". Existe também outro problema: Nós estamos habituados ao "crude árabe". Este custa cerca de 10 USD/barril para extrair - a teoria "cavem um buraco no deserto e sai petroleo". Extracção nas Tar Sands do Canadá já é mais cara: cerca de 40 USD. Mas as maiores "novas reservas" do mundo estão neste momento na América do Sul: Brasil e Venezuela. Ora o crude venezuelano(do Orinoco por exemplo) não só é mais denso - mais caro de refinar - como é mais dificil de extrair - custando cerca de 60 USD/barril. O crude brasileiro, com as novas reservas que se suspeita sejam baotante grandes têm um problema: é "deep sea drilling", e como calculam é mais cara prefurar a maior profundidade no meio do Atlantico a maior profundidade, do que no meio do deserto. Um barco para começar prefuração em mar alto custa 600 mil USD/dia de aluguer verus 125 mil USD/dia à 4 anos atrás - e não há muitos.

Resumindo e baralhando:
Mesmo descontando os 15 a 20USD via DoE e os 15 a 20 USD via grandes fundos replicadores de indices, ter crude a menos de 75USD quando as grandes novas reservas custam 60 USD a tirar é um sonho. E para chegar aos 75 USD precisamos de quebras de consumo, que não estamos a verificar em grandes países emergentes como a China, pelo que se calhar é melhor não contar com crude a menos de 100 USD. E não estou a ter em conta o "prémio de risco politico" - aka Irão querer armas nucleares por exemplo - a Nigéria a sabotar poços ao mesmo tempo que inventa impostos retroactivos para cobrar à Shell/BP para financiar a petrolifera estatal que tem que colocar dinheiro nas parcerias com a Shell/BP ou o mero efeito "descida do USD" ...

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

"É a inflação, estupido"

Uau! 3,9% de crescimento. 116 mil novos postos de trabalho. Impressionante. Isto é que é fugir a uma recessão. Ou será?

Vamos ser um pouco cínicos e advogados do diabo por uns minutos. Comecemos pelos números do "emprego". 116 mil novos postos de trabalho criados na economia norte-americana, acima das expectativas. Mas vamos colocar os números em contexto: Dos 116 retirem 36 mil postos de trabalho adicionados via Estado Federal norte-americano, ou seja, mais funcionários públicos. Sobram 80 mil, dos quais 50 mil são contabilizados como "Lazer e hotelaria". Para os mais incautos: é aqui que se insere trabalhos como servir às mesas em restaurantes. Dos restantes 30 mil, cerca de dois terços são professores - isto no mês em que as escolas começam as aulas. Curioso. O sector industrial perdeu empregos liquidos. O sector financeiro perdeu empregos liquidos. O sector tecnologico idem idem aspas aspas.
"Pera ai... então as pessoas estão a ser despedidas das grandes industrias e bancos e a arranjar emprego a servir à mesa?" - basicamente, sim! Alias, visivel pela média de remuneração horária recebida, que desceu.

"Mas olha lá: 3,9 por cento de crescimento! não há grande volta aqui a dar" dirão os mais "bulish". Bem, tecnicamente até à grande volta a dar. Mas antes disso, vamos a uma pequena distinção que os economistas fazem e se esquecem de explicar: Nominal vs Real. Eu posso medir o PIB em termos nominais, ou seja, crescimento de um periodo ao outro, simples. O problema é o nivel de preços. Se as coisas crescem e os preços crescem no mesmo valor, eu fiquei na mesma. Pelo que eu, enquanto economista, deflaciono quantidades nominais - usando um indice de preços chamado "deflator do PIB" - para chegar ao crescimento real. Um mera brincadeira matemática: dividindo o crescimento nominal pelo real dá-me o deflator implicito nas contas.

O crescimento nominal dos EUA no 3Q foi de 4,7 por cento, ABAIXO das expectativas - que eram de um crescimento nominal de 5,1 por cento. Ora 1,047/1,039 (os 3,9 por cento foram supostamente crescimento real) = 0.0078. Ou seja, o deflator do PIB implicito, que mede o indice de preços do periodo foi de 0,8 por cento. "Por isso é que a Fed baixou as taxas de juro. Não há pressões inflacionistas na economia e a malta que faz as contas nunca iria usar um deflator baixo de proposito se não fosse a inflação real, certo?". Bem, errado. Os EUA usam a "core inflation", que desconta "food" and "energies", ou sejam, mede tudo o que quizerem menos inflação. E se forem ver a inflação média dos últimos 7 trimestres - e a inflação exibe caracteristicas reversivas à média, tal como a volatilidade - é de 3,1%. Ora vamos la ver o que acontece ao PIB real com uma inflação média de 3,1%. Opps. 1,047/1,031 - ou seja estou a "deflacionar" preços - é igual a 1.55%!

Vamos a um exemplo idiota: 10 "bloggers" compram 1 pacote de açucar cada um. O pacote de açucar, por idiotice, custa 1 euro. Esta "mini-economia" tem a rubrica de consumo privado com 10 euros (10 "bloggers" a comprar 10 pacotes de açucar ao todo, a um preço de 1 euro/pacote). O açucar aumenta 10%, e custa hoje 1,10 euros. Os mesmos 10 "bloggers" gastam agora 11 euros em consumo privado, mas eu enquanto economista não deflaciou-no estes 10% porque a minha medida de inflação não tem o preço do açucar ("core inflation - sem "food" e "energies"), pelo que o PIB aumentou magicamente 10%!! Isto é pura inflação não contabilizada...

Voltando aos USA. O consumo privado aumentou, mas aumentou quando tudo quanto era energia e soft commodities está a ir em direcção à lua. Mas esses não entram na inflação pelo que qualquer estatistica de crescimento vem "enviesada", e os valores reais vêm "sobre-estimados".

"Mas olha lá! Por que raio é que vocês não contam com comida e combustivel na inflação lá nos states?" Bem a desculpa oficial é que os preços são demasiado volateis. O que nós economistas nos esquecemos de dizer é que é de todo o interesse de qualquer Estado que corra um deficit orçamental com divida publica ter inflação alta. Chama-se "senhoriagem" e age como um imposto. De forma simples: eu, Estado, peço emprestado 100 euros e pago 4%/ano e digo-vos "ah e tal, a inflação é 2%/ano" pelo que voçês são compensados. Mas se a inflação for mais alta, digamos 6%, então vocês estão a perder 6% e eu a pagar 4% ao ano. Ao fim de 10 anos (sim os Estados endividam-se a longo prazo) voçês precisam de 179 euros para comprar o que dantes custava 100. Mas eu paguei-vos de volta 148 euros. Vocês foram taxados em 31 euros pelo caminho e não deram por isso. Outra brincadeira fiscal é que activos financeiros, ou casas por exemplo, tendem a valorizar com a inflação. Compram uma casa por 100 mil euros. A inflação é de 6%. Ao fim de 10 anos vendem-na por 179 mil euros. Tecnicamente vocês não fizeram dinheiro, apenas mantiveram poder de compra. No entanto, o Estado vai-vos taxar esses 79 mil euros como "mais valia financeira". Dai a inflação servir de imposto e o Estado ter todo o incentivo de a ter o mais alto possivel sem a malta dar por isso...

Bem e como este post já vai longo - peço desculpa por isso - termino a dizer:
Cuidado com as estatisticas! Não há nada mais facil que manipular PIBs/inflação/emprego, e nem tudo vai tão bem como parece em terras de tio Sam. Mas isso fica para outro post

Quinta-feira, Outubro 25, 2007

Patinagem pouco artistica

Para hoje, deixo aqui o pensamento sobre a mania dos Bancos Centrais de tentar "martelar" câmbios. Reza a história que o resultado não costuma ser muito bom.

Vejamos um pouco de história. Comecemos por 1929. Na década de 20, para quem não se lembra, a Europa tinha saído da Primeira Guerra Mundial e a potência da altura, o Reino Unido, estava com alguns problemas financeiros. Numa tentativa de restablecer o poder da Libra o Governo britanico regressou ao padrão ouro - com as objecções de um conhecido economista chamado John Keynes. A Fed, criada à muito pouco tempo, e por isso inexperiente, acedeu ao pedido do BoE: suportar a política britânica de uma Libra forte. Problema técnico: na altura o UK corria um enorme deficit comercial perante o maior credor do mundo - com grandes taxas de poupança - os EUA, que tinham um enorme excedente da dita balança comercial. Ditam os canones da política monetária que, perante deficits de balança comercial os câmbios dos devedores devem descer, não ser sustentados como "moedas fortes". Escusado será relembrar como a economia, esse "bicho mau", decidiu tratar do desiquilibrio.

Fast forward - os 80's. Grande década - boa música, algumas boas invenções pelo caminho. Também foi uma década de estagnação. Os EUA estavam com a política do "dólar forte", a correr um enorme deficit comercial e o grande "papão" do momento, e credor do mundo, era o Japão. Tal como os EUA fizeram 50 anos antes, o BoJ apoiou a política do "dólar forte" - ou talvez a politica do "yene fraco" para aumentar aas exportações - contrário ao que devia acontecer pela força do mercado dadas as balanças comerciais dos dois países. Escusado será também lembrar o que aconteceu à bolsa, e à economia americana, com essa brincadeira. A única diferença foi que não foi um "crash global" como 29.

Agora o pensamento para o dia de hoje: Troquem o Japão pela China. Juntem-lhe uma bolha de liquidez criada por poupança excessiva na China, um banco central chinês inexperiente teimoso em não deixar a moeda avaliar - à semelhança do BoJ - e um Tresury americano teimoso no "dólar forte". Juntem um BoJ apoiante dum "dólar forte" de modo a criar um "yene fraco". Quanto mais tempo deixarmos que estes desajustes não sejam corrigidos pela via cambial, e portanto que os respectivos Bancos Centrais deixem de brincar no mercado câmbial, maior o impacto do ajuste. Isto não é "alta teoria monetária". Isto já aconteceu por duas vezes no século passado e as consequências foram sempre as mesmas...

Terça-feira, Outubro 09, 2007

Um mini-crash... da teoria financeira

É curioso ver que muitos "quant" não viram aquilo que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso via.

O problema muito grave que se passou em Agosto é que do ponto de vista dos modelos usados, fazia sentido! Aquela semana de Agosto foi a simples consequência de todos usarem vários modelos que, embora tecnicamente convenientes são irreais.

Passo a explicar:
Os economistas modelam o mercado como uma curva normal (aka curva de Gauss). Esta curva tem uma particularidade muito muito apelativa: variância finita, ou quantificável por um processo estocástico - função matemática em que tens um termo determinativo e um segundo termo aleatório.
Por exemplo, o S&P500. A média histórica da sua volatilidade, medida aqui pelo desvio padrão, é cerca de 1,4% ao dia. Ora, a curva normal é simétrica em relação à média, logo é 1,4% para cima e para baixo. O Teorema do Limite Central(TLC) diz-me que todo o evento aleatório tende para a normal, logo tende também para a sua média. Ora eu faço um portfólio muito giro de CDO - papel comercial em que a garantia é uma tranche dum empréstimo por sua vez garantido pela casa. Agora vamos à gestão de risco. Ora, eu sei, outra vez pelas aulas de estatística, que com digamos 5 desvios-padrão tenho 99,995% dos casos possíveis cobertos. Ora, 5 desvios-padrão no S&P500, por exemplo, é 7%. A probabilidade da ocorrência dum evento acima de 5 desvios é de um em um milhão, logo o meu risco é pequeno. O meu hedge fund alavancado com dívida de curto prazo baseada nessas mesmas CDOs tem um VaR (Value at Risk - valor máximo que eu perco numa variação extrema do mercado com base num intervalo de confiança estimado duma curva normal) é pequeno. Eu não vou à falência.

O problema claro está é que o mercado não é normal. A distribuição a olho nú é semelhante mas não é igual. Estudos levam-nos a concluir que o mercado tem uma modelação semelhante a uma distribuição de Levy ou de Pareto. Problema tecnico: estas duas distribuições não tem variancia finita. Eu não posso fazer um VaR ou mesmo um Sharpe para vender o meu fundo!! E pior, são mais dificeis de manipular matemáticamente. Logo, enquanto economista, ignora-se este facto com base no TLC: no longo prazo a curva vai ser normal. No entretanto não interessa.
O problema com as duas distribuições acima mencionadas é que a sua kurtosis é maior, ou seja, as abas da curva são mais altas, e portanto a probabilidade de eventos de grande risco é muito superior ao previsto! Mas mesmo admitindo que isso podia acontecer (basta ir andando de 10 em 10 anos para trás até 1987, não é preciso ir mais longe!) argumentou-se que, estatisticamente os maus resultados não se agrupam pois SÂO INDEPENDENTES!
Agora um pouco de bom senso: Se todos usamos os mesmos modelos, todos vamos ter os mesmos problemas, todos vamos ficar agarrados com pedaços de papel que não valem nada, a perder 50% do fundo e com margin calls! Logo temos todos que vender activos, seja acções ou obrigações, liquidos para cobrir as margens e esperar que o mercado volte ao normal. O problema é que estamos todos a "desalavancar" ao mesmo tempo! Os maus resultados agruparam-se em cluster e quanto mais vendes mais o mercado desce e mais toda a gente que não estava envolvida vende! Naquela semana as correlações normais foram ao ar! Tudo descia excepto US T-bills a 1 ano!...

Isto mostrou o efeito "sistemico" que uma "desalavancagem" pode ter no mercado. Este problema já se tinha visto no mundo das opções: O modelo básico para fazer pricing de opções parte desse pressuposto de normalidade e volatilidade constante. O que se verifica é que a volatilidade não é constante para os vários strikes e, se o mercado for modelado por uma variancia não fixa, então não hedging perfeito - não te consegues proteger usando o modelo. É curioso que tudo aquilo aconteceu no mês em que o maior crash de sempre da bolha das dot.com saiu dos modelos estatisticos que vão buscar dados a 5/7 anos.

A moral da história é: A teoria distanciou-se da realidade e envolveu tanto dinheiro e ganancia que se tornou muito perigosa, mas a economia não é uma ciencia é uma religião e o que eu estou aqui a dizer é considerado heresia.

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

teorias financeiras...

A verdade é que a análise fundamental e a análise técnica divergem num factor teórico "fundamental"(passo o pleunasmo): movimento browniano geométrico.

Passo a tentar explicar, para os "não economistas":
Imaginem um bebado a percorrer uma rua. Obviamente que o rapaz não consegue fazer uma linha recta, e vai circulando entre o passeio esquerdo e o passeio direito. E como está bebado, decide escolher o passeio com base no lançar duma moeda (bebedeiras dão nestas coisas): se sair coroa ele vai para o passeio esquerdo, se sair cara ele vai para o passeio direito. Ora a probabilidade de sair cara ou coroa, como se sabe, é 50 por cento para cada lado. Ou seja é igualmente provável que ele oscile para a esquerda ou para a direita.

Ora este exercicio simples, quando posto num grafico e analisado matemáticamente tem caracteristicas interessantes:
1. Os movimentos para a esquerda e para a direita são independentes, ou seja, estamos na presença do que se chama uma cadeia de Markov - o passado não afecta o presente;
2. No limite, a distribuição dos resultados é a curva de Gauss, com média e variancia finitas.

Ora tudo junto isto dá ao que chamamos o movimento browniano geométrico, e é com isto que os economistas modelam o mercado e é a base da hipotese dos mercados eficientes, seja qual a forma que escolham (temos a fraca, a forte e a muito forte - para todos os gostos). Dai a posição da análise fundamental: Market timming é tão útil como lançar uma moeda ao ar e escolher compra/venda consoante se tenha cara/coroa - tal como o bebado escolhe esquerda ou direita. O que interessa são os fundamentais: se o plano é bom, a gestão é boa e a empresa é solida, então irá criar valor e isso ir-se-á reflectir no longo prazo. E, mais importante, dado que o mercado é gaussiano, a probabilidade de perda ao investir em acções é quase nula e a rendibilidade tende para a média - efeitos do famigerado Teorema do Limite Central.

Todavia, a análise técnica viola o principio base do movimento que os economistas usam para modelar o mercado: os vários niveis de preços NÂO são independentes. Dai o analista técnico tentar extrair informação com base no passado por meio de indicadores. A não independencia também causa que eu posso escolher o "momento de entrada" e que não é igual a lançar uma moeda ao ar, ou seja, uma entrada aleatória. De acordo com as premissas base, padrões passados tendem a repetir-se, tendencias tendem a perpetuar-se - ou seja movimento persistente de Hurst, e não, como preveria as bases estatisticas da análise fundamental, reversivo à média.

Bem, e como o post já vai longo (e peço dsk por isso), por aqui me fico, embora se pudesse continuar a "dissertar" sobre a "anormalidade dos mercados" - estilo eventos que a curva diz só ocorrem de 10mil em 10mil anos acontecerem 3 dias seguidos em Agosto.

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Sub...quê?

Quanto à questão do "subprime", de per si e visto isoladamente não é catastrofico, nem nunca foi. O mercado subprime só representa menos de 2% do mercado hipotecário norte-americana, e desses 2%, apenas 15% entraram em default. O problema que se viu, e se vai continuar a ver na minha opinião, chama-se liquidez. Ou pelo menos a ilusão da mesma. Empilhou-se divida em cima de divida, investiu-se em activos de longo prazo com recurso a divida de curto prazo, na premissa de, de 3 em 3 meses se fazer o roll-over, ou seja ir buscar mais divida para pagar a divida do periodo anterior. Ora na minha terra isso chama-se um esquema de Ponzi. Mais elaborado é certo, com estruturados, CDOs, ABCPs e outras siglas caras, mas um jogo de Ponzi na sua essencia. E como qualquer jogo de Ponzi, corre muito bem enquanto os activos que deste como colateral valorizam. Ou seja as casas.

Os mercados monetários ainda nao acalmaram. Os spreads aumentaram e vao aumentar. Tendo em conta que a maior parte das empresas tem os balanços alavancados com divida a taxa variavel a 6 meses isso não me parece muito bom. Os bancos estão a vender os 200Bn$ em divida prometida a LBOs/M&As a "discount", para se desfazerem daquilo do seu balanço. E, sinceramente, quando se começa a ler que "este é um novo bull market" [Bespoke Investment Group e McKinsey] ou quando más noticias são motivo para comprar acções[UBS/Citi/etc] eu preocupo-me.

Quanto aos "pelintras dos americanos". Não digo que são pelintras, mas que estão hiper-endividados estão. E enquanto a Asia continuar a reciclar o seu super-avit da balança comercial de novo em dólares, na sua maioria canalizados para o mercado obrigacionista americano, os USA podem dar-se ao luxo de correr defices gemeos com poupança negativa. É o equivalente a um cartao de crédito platina com plafond ilimitado. Pelo menos até ao dia.

Olhem a Asia: Hang Seng subiu 25% num mês. Sustentável? Shangai continua a fazer máximos históricos numa bolha que mais faz lembrar o Japão nos anos 80, e todos sabemos o que aconteceu ao país onde, a certa altura, o m2 ao pé do palacio imperial valia mais que Manhattan inteira.

Acredito que aja mais ganhos este ano, mas também acredito que vamos dar um tombo e apetece "vender" mas ai lembro-me sempre de keynes:
"Os mercados conseguem ficar irracionais mais tempo que os investidores solventes".

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Vou emigrar

Abri a revista Única, e dei por mim a ler o artigo sobre "profissões que ninguém quer ter". Fiz uma descoberta: ao fim de 16 anos de formação, quatro deles numa área especializada, um ano a trabalhar em controlo de gestão e um ano a fazer jornalismo/consultoria financeira numa revista de economia, acabei a receber o mesmo que o homem que recolhe o lixo e tem o nono ano... emigração é a solução?

Segunda-feira, Abril 16, 2007

O elogio da loucura ... judicial

Sou jornalista e escrevo para uma revista mensal de finanças pessoais, a "Carteira". A minha função, enquanto jornalista, é relatar a verdade dos factos. No caso especifico da minha área, a minha função é trazer ao público leitor toda a informação disponível, correctamente fundamentada por fontes identificadas, de forma a que possam tomar uma decisão informada quando adquirem um serviço financeiro.

Se um produto financeiro, como um fundo de investimento, é caro porque cobra comissões mais altas que os concorrentes, se um depósito a prazo tem por detrás um investimento em fundos em mercados emergentes ou se um banco está a obrigar os clientes a adquirir outros produtos do seu grupo em troca do crédito (prática ilegal) é a minha obrigação divulgar e fundamentar.

A grande protecção de um jornalista, quando divulga uma notícia é saber que, se disser a verdade, então está protegido, por lei. O meu primeiro director ensinou-me uma regra que nunca esquecerei: a regra das "três aspas", ou seja, procurar sempre três fontes diferentes, identificá-las, e nunca basear o artigo na minha opinião. "Não coloques a tua cabeça no cepo" dizia-me. Esta máxima - chamem-lhe "regra das três aspas" ou outra coisa qualquer - é uma das bases de todo o jornalismo.

O diário "O Público" decidiu públicar uma história onde refere que o clube de futebol "Sporting" devia dinheiro ao fisco. O "Sporting" negou a acusação e processou o jornal do "difamação". Depois de duas decisões que davam razão ao jornal, por ter públicada uma notícia verdadeira, vem o Supremo Tribunal de Justiça condenar o jornal "O Público" a pagar 75 mil euros ao clube de Alvalade. A basear a sua decisão não está a falta de veracidade da noticia. Alias, "é irrelevante que o facto divulgado seja ou não verídico para que se verifique a ilicitude a que se reporta este normativo, desde que, dada a sua estrutura e circunstancialismo envolvente, seja susceptível de afectar o seu crédito ou a reputação do visado", lê-se no acórdão.

É curiosa a jurisprudência que está a ser feita: o bom nome de uma instituição está acima da verdade. Não interessa qual a verdade em causa. Segundo a teoria dos juizes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça, casos como o famigerado "Watergate" nunca viriam a público: o artigo do Washington Post feria o bom nome de uma das maiores instituições dos EUA, a presidência daquela República. As publicações feitas sobre a falta de verdade dos relatórios da CIA sobre o Iraque nunca seriam públicados, pois ferem o bom nome da instituição.
Tão curioso é o facto de o Supremo Tribunal de Justiça versar sobre a "utilidade pública" da notícia em questão: "não havia em concreto interesse público na divulgação do que foi divulgado", refere o famigerado acordão. É inacreditável ver uma das mais altas instâncias judiciais do país considerar que, noticiar que uma instituição não está a cumprir com as suas obrigações fiscais para com o Estado, ou seja, todos nós, não tem "concreto interesse público".

No momento em que se fala de "independência da imprensa" e das "pressões das instituições públicas" sobre os jornalistas, como é que se pode esperar que um jornalista revela algo verdadeiro, fundamentado e com fontes crediveis, se "é irrelevante que o facto divulgado seja ou não verídico para que se verifique a ilicitude".
Hoje, não só somos nós que temos que pagar as indemnizações do nosso bolso (e não a empresa que está por detrás da públicação) como ficamos sem a última protecção que nos restava para o exercicio das nossas funções?

Segunda-feira, Março 26, 2007

E o grande vencedor foi... Salazar

É curioso que num país com 868 anos de história (faço as contas desde 1139, ano em que, após a Batalha de Ourique um dos “concorrentes” decide auto-proclamar-se Rei), quatro dos finalistas e os três dos vencedores sejam da primeira metade do século XX.
Foi Salazar importante? Para bem e para mal foi. Foi um ditador, o regime era fascista, a opinião política era perseguida. Também foi ele que sanou as contas públicas, electrificou a maior parte do país, fez várias infra-estruturas necessárias e manteve-nos fora da II Guerra Mundial. Não foi o Diabo na Terra. Dai a ser o maior português de sempre... vai uma grande distância.
Álvaro Cunhal também não merece o lugar que teve. Opositor do regime de Salazar, é verdade, tinha um objectivo em mente: substituir um regime ditatorial de direita por um regime ditatorial de esquerda. A memória é curta, e já todos se esqueceram das inúmeras tentativas de golpes, que culminam no 25 de Novembro. Também é curta, a memória, ao esquecer que o Dr. Cunhal foi o único líder comunista do “ocidente” que aprovou a invasão de Praga pelos tanques soviéticos, para por fim à “revolta democrática”.
Em tão ilustre companhia, é curioso ver a decisão do povo português. O nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, tem o mérito de, contra Castela, os nobres galegos e a própria mãe, concretizar o sonho do seu pai: um reino independente, que ainda hoje subsiste, um dos mais antigos da Europa, é preciso relembrar.
Mas em quase 900 anos de Portugal, por dois períodos fomos um exemplo para toda a Europa. Pela mão de Sebastião José de Carvalho e Mello, vulgo Marquês de Pombal, Portugal investiu em educação e tecnologia, reconstruiu a sua capital depois de um dos piores terramotos da história. Marquês de Pombal volta a colocar Portugal no mapa europeu.
Mas para mim, o maior português de sempre é sem dúvida alguma D. João II. Nenhum rei em Portugal tem um legado tão importante, e ainda lembrado, como este: 150 anos de domínio quase absoluto dos mares. É ele, enquanto ainda príncipe, que convence o pai, Afonso IV, o africano, a ir à conquista de África. É ele quem desenha as linhas mestras da estratégia dos descobrimentos portugueses. O seu irmão, o Infante D. Henrique, tem o mérito de concretizar o sonho do Rei, mas quem toma a decisão e estabelece o objectivo é D. João II. É ele que divide o mundo com os espanhois, que tentaram inclusivé pressionar o jovem rei português por intermédio do Papa, e fica com a melhor parte: África e Brasil. Graças à sua estratégia, brilhantemente concretizada pelo seu irmão, Portugal assume pela primeira vez o estatuto de super-potência. É a nação tecnologicamente mais avançada (a vela latina, as caravelas que podia navegar em alto mar, o nónio, a navegação pelas estrelas eram o equivalente aos computadores, satélites e vaivéns da NASA de hoje), comercialmente mais rica, e com o domínio dos mares. Lembrem-se que na divisão do mundo, os portugueses pagavam para atravessar o mar espanhol e vice-versa. Curiosamente Portugal não tinha disso necessidade (as rotas comerciais passavam pelo Atlântico, nosso), ao contrário de Espanha que pagava o tributo por atravessar as “águas territoriais” portuguesas.
O português é saudosista. Temos saudades do velho império. Somos um dos poucos povos do mundo que tem este estranho conceito de “saudade”. Talvez por isso Salazar tenha ganho: o que D. João II constrói é erguido ao conceito de valor máximo de Portugal por Salazar: Portugal projecta-se no mundo como o primeiro império intercontinental, apoiado na sua história e na unidade, de Trás-os-Montes a Timor. Como dizia Fernando Pessoa, outro dos ilustres finalistas, “Senhor, falta cumprir-se Portugal”.

Quinta-feira, Novembro 10, 2005

E assim se faz ciência...

Every school of thought is like a man who has talked to himself for a hundred years and is delighted with his own mind, however stupid it may be.

J.W. Goethe, 1817, Principles of Natural Science

Terça-feira, Outubro 25, 2005

Novo governador da Reserva Federal America: Ben Bernanke

Foi anunciado quem irá substituir Alan Greenspan como governador da Reserva Federal Americana (Fed para os amigos). A escolha recaiu sobre Ben Bernanke, actual Presidente do Conselho Económico e Social do Presidente dos EUA.
Ben Bernake é um reputado economista, familiar a muitos alunos de macroeconomia e teoria monetária. É formado em Harvard e doutorado no MIT.
Actualmente a dar aulas em Princeton, é considerado pelos seus pares como ideologica e politicamente neutro, o que dá ao mercados a segurança de alguém que não segue uma bitola politica no que diz respeito à condução de politica económica e monetária.

Bernanke é um crente na estabilidade de preços, e tudo fará para a garantir, enquanto Governador da Fed. O homem que há muito avisa que o perigo da economia americana não é a inflação mas sim a deflação, anunciou que usará todos os instrumentos disponíveis ao Fed para garantir que tal não acontece.
Bernanke entra num momento em que os Estados Unidos enfrentam uma politica orçamental desastrosa e terá a difícil tarefa de bater o pé ao Presidente Bush, recusando-se a financiar pela via monetária o défice americano.
Entra também com a herança de dois homens que, antes dele, se sentaram na cadeira que ele hoje vai ocupar: Alan Greenspan e Paul Volcker. Estes dois governadores, considerados por muitos os melhores responsáveis da Fed do século XX, são os obreiros da estabilidade de preços americana e da credibilidade que granjeia a instituição nos dias de hoje. Por diversas vezes "bateram o pé" a muitos Presidentes, não financiado os défices dos governos federais. E por tal foram respeitados. Inverter esta tendência é não só economicamente mau mas como também significa enterrar uma herança preciosa, a credibilidade internacional que o Fed hoje tem.

Espero que estejam a brincar...

Os juízes e magistrados do Ministério Publico anunciaram uma greve para quarta feira. Acusam o Governo de mexer com algo essencial à pratica da Justiça em qualquer País, a independência do Poder Judicial face ao Poder Politico. A questão já motivou inclusive uma queixa do presidente da associação nacional de magistrados junto do Comissário da ONU para a Independência Judicial.

Eu espero que isto seja tudo uma brincadeira, de muito mau gosto.
Em primeiro lugar, os juízes são titulares de um órgão de soberania, um dos quatro constitucionalmente previsto (Governo, Assembleia da Republica e Presidência da Republica são os outros três). Como titulares desse órgão, administram um dos três poderes de um Estado independente, o poder jurisdicional. Fazerem greve era em tudo idêntico a assistir-mos a uma greve de deputados...
Em segundo lugar, temos a questão das razões da dita greve.
Peço desculpa mas o que é que a a suspensão da progressão automática da carreira, extinção do sub-sistema da saúde que lhes é próprio e redução de férias têm a ver com perda de independência?! Porque deverão os magistrados e juízes ter um sub-sistema próprio de saúde, quando todos os outros, inclusive membros do Governo e Primeiro Ministro partilham o mesmo sistema principal?

Tudo isto revolve à volta da questão de perda de privilégios e os Juízes portugueses demonstram nesta matéria um forte apego aos seus (privilégios entenda-se)...
Todo o País terá de fazer sacrifícios. Os juízes não constituem excepção.

Agricultores, protestos e secas...

Hoje agricultores de todo o País manifestaram-se, mostrando o estado das suas culturas. As causas são conhecidas, a seca prolongada tem feito grande mossa na produção agrícola e pecuária portuguesa. As reivindicações também são por demais conhecidas... queixam-se de falta de apoios do Estado, da necessidade de fundos de emergência.

Apenas coloco uma questão:
Onde estavam este manifestantes aquando da construção de "elefantes brancos" como a barragem do Alqueva? Porque não se manifestaram eles, porque não fizeram eles pressão para que o Estado melhorasse as infraestruturas publicas de apoio à actividade?
E mais importante ainda... quando Portugal recebia milhões da PAC(Politica Agrícola Comum), quando os agricultores se candidatavam a fundos e os recebiam, onde foi parar o dinheiro destinado à modernização da nossa agricultura?

Construíram-se vivendas, compraram-se "mercedes", agora queixam-se de falta de apoio?...
Desculpem-me a frieza mas começo a não ter pena de profissionais que entre investir e serem pagos para abater e acabar com produções, escolheram a segunda...

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Orçamento de Estado II: apartes

Ontem nas noticias, entrevistaram alguns tele-espectadores, acerca da dedução de até 50% do valor dum Computador em sede de IRS.
Um deles afirmou que discordava, pois sendo o Computador uma ferramenta essencial no século XXI, deveria ser subsidiada.
Realmente espantoso...
Alguém faz o favor de lhe explicar, que realmente uma dedução de 50% no valor dum bem, significa que o Estado devolve esses 50% após a cobrança do IRS, ou seja, trata-se na pratica de um subsidio!?

Ou há muita gente que não sabe fazer os seus impostos (razão para a enorme fuga ao fisco que temos?!), ou somos realmente um País de subsidio-dependentes!

Orçamento de Estado: e lá estamos nós outra vez

Mais um ano passa, mais um orçamento se escreve. Este, para 2006, não tem uma tónica diferente: Redução da despesa, e aumento da receita, para equilibrar as contas publicas dum Estado "enorme".
Não vou dissertar sobre como o fazer, pois acho tal discussão muito batida. Todos nós sabemos no fundo a solução, apenas a evitámos anos e anos a fio. Disserto sim sobre um tópico que me continua a desagradar na tributação portuguesa, e que se agrava com este orçamento: a irritante mania fiscal de se tributar poupança.
Qualquer estudante de macroeconomia, ou apreciador da disciplina, aprende e sabe de cor a seguinte equação:
Ao rendimento obtido, subtrai-se os impostos sobre o mesmo, ao que se obtém o rendimento disponível, ao qual se subtrai o consumo, obtendo-se por final a poupança ( S = (Y - T) - C, em que S = poupança, C = consumo, Y = rendimento e T = impostos sobre o rendimento). Note-se que C também é taxado. Agora a que me refiro eu quando digo imposto sobre a poupança, estarão a pensar? Refiro-me às seguintes tributações:
Imposto Sucessório, Impostos sobre operações em bolsa e tributação de pensionistas.

1. Imposto Sucessório:
Um dos mais controversos, tem como base de incidência a herança deixada a um herdeiro. Já para não falar na questão mais filosófica de eu ser livre para escolher o que faço ao meu dinheiro, e se acho que deverá ir para o meu filho, ninguém, nem mesmo o Estado, deve ter o direito de interferir nessa esfera de liberdade pessoal, o ponto é que esse dinheiro ou bens passados já foram tributados. Eu já cumpri as minhas obrigações para com o Estado, consumi, e o que sobrou vou passar ao meu herdeiro, ou seja, trata-se de poupança.

2. Impostos sobre operações em bolsa:
Outra coisa que se aprende com macroeconomia, ou por um simples exercício de pensamento lógico, é tendo eu pago impostos, consumido, e tendo sobrado uma porção do meu rendimento eu tenho 2 escolhas:
a) Deixa-lo na conta a sofrer a erosão da inflação, parado.
b) Aplica-lo num investimento financeiro.
Caso seja b) a opção, seja esse investimento uma simples conta a prazo, passando por aplicação num fundo de investimento até, caso a experiência o permita, investimento directo em bolsa, esses fundos irão ser fonte de financiamento para as empresas. A minha poupança será fonte de fundos para as empresas, por meio da intervenção de intermediários financeiros. Logo qualquer imposto que incida aqui, mesmo que legalmente não incida nesse rendimento mas nas empresas que fazem a intermediação financeira, economicamente ter-me-á a mim como tributado (as empresas empurram o imposto por intermédio de manipulação da estrutura de custos, de modo a incutir a taxa de imposto no preço do serviço). Logo estes impostos também tributam poupança.

3. Tributação de pensionistas:
A Segurança Social funciona segundo um modelo Pay-as-you-go, ou seja, eu pago, para financiar a geração que se está actualmente a reformar. Mas em teoria eu tenho uma garantia:
Aquele financiamento terá retorno, ou seja, eu terei a garantia de ter uma pensão, baseada na minha carreira contributiva. Logo a taxa de Segurança Social pode ser vista como uma forma de poupança coerciva, sendo que eu para efeitos práticos, sou forçado pelo Estado a por algum de lado para a reforma, sendo ele, o Estado, o fiel depositário dessa poupança. Logo ao taxar pensionistas, eu estou a tributar a poupança que eu, enquanto Estado, os forcei a fazer.

Por muito que o défice o exija, há princípios que não devem ser transgredidos. Um deles é este:
A base de incidência dum imposto não deve ser a poupança, pois esta é, por intervenção de intermediários financeiros, como bancos e correctoras, a fonte de todo o investimento numa economia (em Macroeconomia afirma-se mesmo a igualdade: poupança do Estado + Poupança das famílias + Poupança do exterior = Investimento).
Logo ao tributa-la eu estou na prática a tributar a fonte do investimento, motor de qualquer economia...

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

Nobel da Economia 2005

"for having enhanced our understanding of conflict and cooperation through game-theory analysis":
Robert J. Aumann / Thomas C. Schelling

E assim se fazem as autarquicas...

E se passou mais um momento eleitoral da Nação, com varias interpretações, cada uma à "vontade do freguês".
Se por um lado o PSD foi o grande vencedor da noite, e o PS o grande derrotado, concorde-se com o Primeiro-Ministro quando este afirma que não se deve fazer interpretações nacionais, e por isso abusivas, de um resultado dos eleições altamente personalizadas.
Alias esse factor, a personalização da figura do autarca na eleição, ficou patente na vitória de Valentim Loureiro em Gondomar, Isaltino Morais em Oeiras, entre outros independentes. Não que as pessoas não imprimam um cariz de cor partidária às eleições autárquicas, alias a regra é partido no governo perde autárquicas por desgaste, mas tendencialmente vêem o candidato em primeiro lugar.

O PS perde todos os seus objectivos, quer em número de eleitores, câmaras e grandes centros urbanos. Perde até o que há 6 meses atrás, muitos davam como impossível de não ganhar: a Câmara Municipal de Lisboa. A derrota pesa sobre a cabeça do Secretário-Geral Sócrates e do Coordenador Autárquico Jorge Coelho, e o primeiro teve a lucidez de o admitir em publico perante o País.

O PSD reconcilia-se com o eleitorado, e Marques Mendes e Dias Loureiro foram os dois obreiros da vitoria. E ao contrario da opinião geral, acho que Marques Mendes sai fortalecido mesmo com as vitorias de Isaltino Morais e Valentim Loureiro. Mostra pois coragem de afrontar os barões do Partido, para defender um conjunto de princípios, o que é de louvar.
Em geral o País permanece laranja, ANM (Associação Nacional de Municípios) permanece em mãos Social-Democratas, tendo esta vitória sido superior à de 2001, que causou a demissão de Guterres.

Frise-se também o melhor discurso da noite:
O discurso do Primeiro-Ministro José Sócrates.
Sóbrio, cumprimenta e congratula todos os autarcas eleitos, dá os parabéns ao PSD pela vitória, e admite a sua derrota. Corta ainda os argumentos, de quem queira interpretar a derrota como um cartão vermelho, expressando e frisando o carácter local, pessoal e descentralizado deste acto eleitoral.

Domingo, Outubro 09, 2005

A eterna questão turca

A Turquia permanece uma eterna questão na agenda da União Europeia... Sim ou Não heis a questão!

A Turquia tem sido desde os tempos do Império Bizantino um caso bicudo.
Foi assim nos tempos de Constantinopla (agora conhecida como Istambul) que se iniciaram as Cruzadas contra os infiéis, quando o Imperador do Império Bizantino, ou Império Romano do Oriente, pede ajuda ao Papa na defesa da mais rica cidade cristã da época, Constantinopla.
Foram depois estas Cruzadas que deram a desculpa necessária aos reinos islâmicos para a Jihad, ou Guerra Santa.

Foi assim também nos tempos do Império Otomano, que dominava o Estreito de Bosforo (que liga o Mediterraneo ao Mar Negro), um importante aliado da Alemanha na I Guerra Mundial.
Foi também nesta época o principal reino(ou sultanato) muçulmano, antes da criação dos Estados árabes actuais. Estados estes criados com a ajuda britânica e francesa, de modo a desferir um golpe fatal ao Império Otomano.

Foi durante a Guerra Fria uma importante zona estratégica, onde a NATO colocou um importante arsenal contra a URSS e o Pacto de Varsóvia.

Nota-se alguma coincidência? Talvez a constante ao longo da história da Turquia ter estado desde sempre envolvida na história europeia, como actor activo...
Então porque não a entrada na União Europeia dum estado membro da NATO e do Conselho da Europa?
Por não serem um país europeu? Geograficamente ninguém sabe onde termina a Europa e começa a Ásia. Será nos Urais e no Mar Negro, ou estender-se-á ela, a Europa, até à península arábica, abrangendo Israel, Turquia e Russia?
São ou não estes países profundamente europeizados?

A Turquia é a única Republica laica de maioria islâmica. É a principal esperança do Ocidente para o entendimento e o exemplo dum país onde o véu convive pacificamente com as "jeans".
E tem sido assim, governada por moderados, que agora se mantêm no poder com uma promessa: A entrada no clube da prosperidade conhecido como União Europeia.
A Turquia é também um importante aliado militar da NATO, necessária para qualquer intervenção na zona Indo-Asiática.

Estes são pelo menos os argumentos a favor do sim. E os partidários do não à entrada?
Embora o argumento "Turquia não é Europa" tenha sido parcialmente desmontado, surge uma questão:
Se deixamos a Turquia entrar, porque não deixarmos entrar Israel (que participa há muito tempo no Concurso da Eurovisão)? ou a Rússia? ou Marrocos, que há muito que pede entrada, tendo como justificação para o NÃO europeu, o facto de não fazer parte da Europa? Onde paramos?

Pensemos um pouco neste ponto:
Se uma Europa a 15 funcionava mal, se a Europa a 25 está a dar mostras de falhar bastante, como seria uma Europa a 30 ou 40? onde parar?

E mais importante, estará uma União Europeia, cujos membros são na sua totalidade países cristãos, preparada para a entrada de um país islâmico? Estaremos nós, que nos consideramos um bastião da tolerância, preparados para tal convívio?

PS: Existe também a questão mais politica do Chipre. A Turquia ocupa há décadas a zona norte da ilha, ilha essa Estado-Membro da UE, e apoiada pela Grécia (que não tem boas relações com a Turquia) e pelo Reino Unido. Estarão estes membros preparados para ver este Estado como membro?

Sexta-feira, Julho 29, 2005

Sebastianismo de Esquerda...

Mário Soares vai-se (re)candidatar à Presidência da República. Já não comentando o principio de "a água do rio só passa por debaixo da ponte uma vez", com o qual concordo, apenas gostaria de focar um ponto:
O sentido messiânico desta candidatura...
Face à incapacidade de se encontrar um candidato na área politica da esquerda que pudesse constituir um rival à altura de Cavaco Silva, conclui-se a necessidade da candidatura do eterno "Pai da pátria" de novo à presidência.
A razão é simples: é inconcebível a eleição dum presidente de direita, sendo tal facto não só um foco de instabilidade politica para o governo de maioria do PS, como mesmo um foco de instabilidade democrática!

Algo me ultrapassa neste raciocínio... Quem entregou à esquerda portuguesa o Monopólio da Democracia? Não é a direita moderna tão democrática como a esquerda?
Se calhar têm razão, o grau de democracia da direita é diferente do da esquerda. Atrevo-me a dizer superior. Somos mais liberais, e não suportamos a intervenção constante do Estado na esfera privada do cidadão...

A candidatura de Mário Soares expressa também uma faceta constante na sua personalidade: O facto de se ver como um D. Sebastião da Politica Portuguesa, o Messias que nos retirará do fundo, o Sábio, que perante a inabilidade das "crianças" terá de voltar à cena para por ordem na Casa...

Terça-feira, Junho 28, 2005

As vicissitudes da subtracção e os orçamentos rectificativos...

O orçamento rectificativo terá de ser rectificado. Tudo porque os "Doutores" do Ministério das Finanças se esqueceram o que qualquer aluno de Economia é obrigado a saber para um exame de Economia e Finanças Publicas:
As contas do orçamento têm de ser consolidadas, ou seja, retirar transferências entre sub-sectores da administração publica...
Traduzindo para Português:
É preciso subtrair aos vários saldos, os saldos das tranferências, para não estarmos a somar as coisas a duplicar!...

É então perfeitamente compreensível o erro, dada a complexidade da tarefas em mãos...

PS: Chamem-me derrotista mas se nem contas de subtrair, vulgo "contas de menos", o Ministério das Finanças sabe fazer como é que podemos estar à espera que consigam controlar o défice orçamental?

Segunda-feira, Junho 27, 2005

Os perigosos liberais e a "besta"

Somos um dos Países da OCDE que, em termos per capita e percentagem do PIB, mais gasta com Educação e Saúde. No entanto somos um dos Países da OCDE com piores estatitisticas destes sectores.

Este facto é paradigmático da solução para Portugal: Não é preciso aumentar a despesa pública, é preciso sim geri-la com eficiência.
Gerir recursos sem desperdícios, aplica-los onde são necessários, em suma, racionalizar o Estado, e deitar fora o supérfluo.

Chamem-me um "perigoso liberal" mas acho que temos Estado a mais,e que 50,2 por cento de PIB em despesa pública um absurdo. Vejamos um exemplo prático, a poluição:
É uma externalidade negativa para todos, do qual as empresas não têm noção (ou não querem ter) e que portanto não incorporam nos seus custos.
Solução estatizante: Taxar as empresas (ainda mais um bocadinho...) de modo a que reduzam os seus níveis de poluição para níveis ditos aceitáveis. A este tipo de imposto "corrector" dá-se o nome de Imposto Pigouviano. Até aqui tudo bem, mas agora pensem lá um bocadinho nos custos que se incorre, para reunir informação suficiente de modo a calcular o nível óptimo de todas as empresas, com o objectivo de saber o nível óptimo de imposto. Tal é impraticável e ineficiente.
Solução dos "perigosos liberais": Dar a uma das partes um direito de propriedade (por exemplo o direito das populações a não terem poluição) e criar um mercado onde as empresas possam adquirir, mediante um preço, o direito a poluir. O mercado iria funcionar, atingindo de forma descentralizada, um equilíbrio eficiente ao nível do valor de poluição efectivamente criado e introduziria na estrutura de custos das empresas essa externalidade.

Mas espera lá, a solução de mercado obtém os mesmos (senão melhores) resultados que a solução estatizante com menores custos para o Estado.
Isso quer dizer que o Estado se podia concentrar na simples regulação de mercados para assegurar que as falhas de mercado, riscos morais e selecções adversas não ocorressem, deixando o resto da intervenção ao cuidado dos intervenientes.
Então para que é que continuamos com estas manias de criar "bestas" que consomem metade do que produzimos para obter resultados medíocres?

Segunda-feira, Março 28, 2005

Tendências conservadoras...?

De todos os doentes mentais internados em Portugal, cerca de 60% são maníaco-depressivos.
Desses 60%, 9 em cada 10 tem historial de consumo de drogas ditas leves(Cannabis, Haxixe, e outras ervas).
Estudos indicam uma elevada correlação estatística entre consumo de drogas leves (que já se concluiu terem propriedades degenerativas do cérebro humano) e estados maníaco-depressivos.
Podemos estar perante uma falacia de causalidade espúria (do genero, o Sol "levanta-se" todos os dias devido ao cantar do galo) mas tendo a inclinar-me desfavoravelmente à despenalização do consumo de drogas leves...

Direita, Esquerda e a eterna questão da igualdade...

Muito se discute sobre quais as reais diferenças entre a Direita e a Esquerda.
É no entanto um tópico de dificil debate em Portugal, devidos aos "traumas" e rótulos que se colam à Direita. Conservadores? talvez... fascistas? alguns mas decerto uma minoria... liberais? Decerto que sim, em maior ou menor grau.
Para mim a grande distinção é a velha questão do manto da igualdade social.
Que todos devemos ter igualdade nas oportunidades, e igualdade de tratamento perante a lei é unânime (para a larga maioria dos politicos pelo menos). No entanto até onde deve o Estado utilizar o seu monopólio do uso da força coerciva para tal fim?
Para mim, o Estado deve apenas garantir que todos têm a formação necessária para obter capacidades de satisfação dos seus objectivos. A garantia deve ser a de que ninguém terá menos oportunidades por ter nascido em cidade X ou Y, em familia A ou B, com mais ou menos rendimentos. Tudo o que venha acima disso é distorcivo. Porquê? Veja-se a seguinte analogia.
Quem acompanhe atletismo repara numa coisa curiosa. Na linha de partida os corredores não se encontram lado a lado mas sim ligeiramente espaçados, numa diagonal. Os estudantes de geometria facilmente percebem porquê. Partindo os corredores de uma curva, os corredores nas pistas exteriores teriam de percorrer uma maior distancia que os corredores das pistas interiores, caso estivessem todos lado a lado. Daí que um terceiro agente tenha decidido colocar os corredores das pistas interiores mais atrás dos corredoras das pistas exteriores. Igualdade de oportunidades.
Agora imagine-se que no decorrer da corrida, em que conta apenas o mérito do corredor, o terceiro agente decidia que não era justo que o primeiro classificado estivesse com uma vantagem de 20 metros em relação aos outros. Ou que o ultimo classificado estivesse a 20 metros do seu colega imediatamente à frente. E a par dessa decisão, decidia forçar os corredores nas primeiras classificações a abrandar, ou mesmo penaliza-los em tempo em função do seu distanciamento. Temos de admitir que tal se afigurava como injusto.
Chame-se ao terceiro agente de Estado, e tome-se os corredores por individuos. Garantindo igualdade de oportunidades (linha de partida alterada) que direito tem o Estado de a meio da "corrida" alterar a posição dos individuos por considerar que essa posição, alcançada por merito próprio, é socialmente injusta?
Embora algo parcimoniosa, a analogia dá que pensar. O manto da igualdade deve ser vestido com cuidado, pois pode tornar-se uma referência perante a qual toda a sociedade é rebaixada a um nivel médio.

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Máxima politica

"O poder não se ganha... Perde-se"

A memória é curta...

Decidi, ao ver as declarações de José Socrates e quem o acompanhava, não comentar o seu discurso.
Submeto como alternativa um lembrete, para nos lembrar quem voltámos a colocar no poder, desta vez com uma maioria absoluta nas mãos.
A memória em politica é definitivamente muito curta...

Domingo, Fevereiro 20, 2005

Eleições IV

Santana acaba de anunciar que irá pedir um congresso extraordinário. Assume a responsabilidade, não deixando no entanto de a "partilhar" com Durão Barroso e Jorge Sampaio.
Este anunciado congresso, teme-se, será um lavar de roupa suja, e espera-se que desse conclave saía uma clarificação ao País sobre quem somos e para onde queremos ir. Será no final do dia um julgamento politico.
No entanto, como eu temia, Santana Lopes não esclarece se irá ao congresso demitir-se, defender-se ou recandidatar-se.
Santana está, anunciadamente, morto politicamente, mas tenta, ao não clarificar a sua situação, condicionar esse mesmo congresso, numa última tentativa de sobrevivência.
Aguardemos os proximos episódios...

Eleições III

É com pesar que assisto Paulo Portas acabar de anunciar a decisão de se demitir do cargo de Presidente do CDS/PP.
Por muito que por diversas vezes não tenha estado de acordo com as posições por ele assumidas, e por muitas vezes critiquei a coligação, era necessário um partido que se assumisse em Portugal como de direita democrata-cristã. Paulo Portas conseguiu o que nunca ninguém achou possivel:
Transformar o "Partido do Taxi" num partido passivel de se coligar ao PSD, de governar, de apresentar propostas.
A bem ou a mal, Paulo Portas foi um bom Ministro da Defesa. A bem ou a mal foi ele que reformou as nossas Formas Armadas, as profissionalizou, as reequipou.
Podemos não estar de acordo com o seu ideario politico, e reafirmo que muitas vezes não estive, mas a verdade é que ele era uma peça necessária no parlamento.

Fez aquilo que se exige a um lider, assumiu a derrota política (e a sua derrota não é tão grande como por exemplo a derrota do PSD) e assumiu a responsabilidade pessoal dessa derrota.
Saí como um grande lider partidário, saí como um bom ministro numa pasta dificil, saí mostrando uma ética politica inigualavel na direita actual.

PS: Concordo com Paulo Portas numa questão:
Em nenhum país do mundo a diferença entre a democracia-cristã e o trotskismo é 1%.

Eleições II

Marques Mendes foi o primeiro dos "barões" a falar. Assumiu a derrota, apelou à união interna. Mostra assim a cara, face a um partido destroçado e desorientado. Mostra-se como candidato e potencial lider, que sabe assumir o fardo da derrota. E na mente do povo português foi ele que assumiu esse fardo.
Santana permanece calado, quando deveria ser o primeiro a dirigir-se à nação, perante tão expressiva mensagem. Perdeu o timing, e foi condicionado por Marques Mendes...
Santana deveria ser o primeiro a reconhecer o significado da mensagem:
Os portugueses não votaram no PS por quererem Socrates mais do que outro, votaram no PS porque não queriam que existisse a possibilidade de voltarem a ter Santana Lopes como Primeiro-Ministro. Foi um voto anti-Santana que se concentrou no PS.
Santana permanece calado, quando deveria ser o primeiro a admitir que já não terá condições politicas para governar o PSD.
Santana permanece calado, enquanto outros assumem o fardo que é dele... o fardo duma derrota que ficará na história de Portugal.

Eleições

A confirmarem-se os resultados(escrevo quando estão apuradas cerca de um quinto das freguesias do País) fez-se história eleitoral em Portugal.
Por um lado temos uma derrota histórica do PSD(que pode ficar abaixo do seu resultado das Contituintes, Mota Pinto ou Fernando Nogueira), que exige uma clara reflexão interna. Todos podemos prever como irá o PSD reagir, pedindo um congresso extraordinário, cruxificando Santana Lopes e Durão Barroso.
Santana está politicamente morto, jogou o "tudo ou nada" e perdeu. Só tem uma saida, demitir-se e ir a congresso (tentar) defender-se. Os barões irão lavar a roupa suja acumulada durante 3 anos. Surge a questão se disso emergirá uma solução.
Por outro lado temos, pela primeira vez na nossa história, a passagem dum partido da oposição directamente para uma maioria absoluta. Muitos dirão que o mérito é do eng. Socrates e do Partido Socialista, mas a verdade é que o povo português acaba de passar um cheque em branco a um conjunto de governantes que já mostraram o que sabem(ou nao sabem) fazer. O eng. Socrates nada teve de fazer, o PSD fez por ele. O PS tem uma maioria absoluta não por ter as melhores ideias, pois ninguém viu um verdadeiro debate de ideias, mas pela forma como o PSD governou o País. Assistimos a um secretário-geral do PS que numa pose arrogante nada disse, sabendo que nada tinha de dizer para ganhar.
Veremos se o eng. Socrates consegue assumir a enorme responsabilidade que tem em mãos. Ele tem neste momento o poder para fazer as reformas que o País real necessita, a questão é se o PS as quererá fazer. Não me parece.
Sampaio sai deste quadro como o homem que enquanto Presidente retirou uma maioria a um partido para entregar essa maioria ao seu próprio partido.
Vamos ver que governo reunirá o eng. Socrates. Vamos esperar para ver...

Domingo, Fevereiro 13, 2005

Um filme a não repetir?

Nações Unidas e o Conselho de Segurança

Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005

O que não diria ele dos nossos politicos...

"Dêem-me seis linhas escritas pelo homem mais honesto, e encontrarei algo com que o enforcar"
Cardeal Richelieu

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

Conflito israelo-palestiniano: será desta?

Em Sharm el-Sheikh, o lider da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, e o Primeiro Ministro de Israel, Ariel Sharon, assinam (mais um...) tratado de paz para o conflito.
Confesso a minha desconfiança sobre o Tratado. Não vou atirar culpas a nenhum dos lados, pois acho que o primeiro acto já há muito que se perdeu, estando neste momento o conflito na situação de "nós atacamos, porque os nossos pais atacavam e os nossos avós também atacavam...".
Mas surgem questões pertinentes:
1. Conseguirá Mahmoud Abbas cumprir com a sua parte e conter o Hamas, a Jihad Islâmica, entre outros? Não nos esqueçamos que o mesmo Mahmoud Abbas que hoje quer a paz teve discursos anti-sionistas na sua campanha de eleição. Não nos esqueçamos quem fornece em grande parte os serviços de saúde, segurança social, educação e trabalho aos palestinianos, o Hamas.
2. Conseguirá Ariel Sharon por fim à influência da ala radical no seu governo? Descontemos o facto de ser um criminoso de guerra(Yasser Arafat também o era...), ele é neste momento a unica aposta para a paz. Será ele capaz de desmantelar pacificamente os colunatos na Palestina? Será ele capaz de fazer Israel obedecer, de uma vez por todas, às linhas de fronteira definidas nos acordos de Dayton?
3. A ultima questão é o muro. Descontando o facto de ser contraproducente, concedo no entanto o direito aos israelitas de se protegerem. Agora sob o manto de um tratado de paz, de um rumo para a região, tudo isto baseado na confiança de que ambas as partes honraram os compromissos assumidos, como se poderá manter um muro que simboliza a desconfiança de um povo em relação a um seu vizinho?
4. Jerusalem. A "cidade três vezes santa" permanece no centro da discordia. Os palestinianos reivindicam-na para capital do futuro Estado Palestiniano, os israelitas não abdicam na cidade berço da sua religião. Entender-se-ão quanto a esta matéria?

Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

Economia: considerações epistemologicas

"Existe a microeconomia e a economia"
Miguel Beleza

Expressões deste tipo são claras da "esquizofrenia" que se vive na ciência, o conflicto entre os microeconomistas e os macroeconomistas. Mas como é que os economistas, entre eles chegam a conclusões tão dispares entre eles?
Tal situação pode em grande facto ser explicado por um facto que, segundo Karl Popper, não deve acontecer a uma ciência: a coexistência de dois metodos epistemologicos distintos.
Segundo ele, tais metodos eram antiteticos, não podendo coexistir, e caso tal sucedesse provocaria uma paralesia no processo de formação cientifica.
Mas que dois metodos epistemologicos?

Comecemos pela Microeconomia:
É de base analogico-axiomatica, querendo isto dizer que se transporta de outras ciencias um conjunto de conceitos com os quais se constroem axiomas, sobre os quais se desenvolvem os modelos. No caso da Micro, foram feitas analogias com a Fisica(particula - preço e por ai adiante) em especial com a hidro/termodinâmica(o funcionamento dos mercados será semelhante ao funcionamento da dinamica dos fluidos ou de ondas de calor).
Com base em axiomas como convexidade, continuidade, transitividade de preferencias, não saciedade, racionalidade constroem-se modelos que depois se comparam à realidade.

Agora a Macroeconomia:
A macroeconomia no entanto obdece a um paradigma mais darwiniano, sintetizado na expressão "primeiro observa-se a realidade, recolhe os dados e depois constroe-se a teoria". É uma ciência de cariz muito empirico, muito baseada em dados estatisticos. Obviamente que tal pode ser uma fraqueza quando da presença de poucas amostras (um problema real no caso da series temporais) mas que gera conclusões mais proximas da realidade.

Tais metodos podem dar origem as conclusões diferentes senão contraditórias. E obviamente que tentar fundamentar a macroeconomia com a microeconomia pode eviesar os resultados.
Vejamos dois exemplos:
Equivalência Ricardiana
Na sintese que é feita entre a macro e a micro, Robert Lucas afirma o seguinte:
Se as expectativas forem racionais e os agentes optimizadores e actuantes com os pressupostos do comportamento microeconomico, então uma descida de impostos é vista pelos consumidores como um divida futuro, pelo que pouparam uma porção do seu rendimento em igual proporção à descida dos impostos. Logo politicas fiscais não têm qualquer efeito sobre o rendimento da economia como um todo.
Tal conclusão faz sentido perante os pressupostos, mas se retirar-mos a racionalidade a conclusão deixa de fazer grande sentido. Evidencias empiricas também não demonstram de forma conclusão a existencia deste fenómeno, antes pelo contrario, indo um pouco contra a racionalidade.
Miopia do consumidor
Em Micro estuda que as funçãos de procura derivadas pelos metodos da disciplina são homogeneas de grau zero nos preços e nos rendimentos. Quer isto dizer que o consumidor não é miope(se o seu rendimento alterar na mesma proporção dos preços a procura dele não se altera).
No entanto em Macro verifica-se empiricamente que no curto prazo o consumidor pode ser miope, podendo alterar o seu consumo perante uma alteração das variaveis. Ou seja o consumidor não percebe que se os rendimentos aumentarem, por exemplo 3%, com uma inflação de por exemplo 5%, que ele está pior do que estava, olhando apenas para o seu aumento de rendimento.

Uma grande razão para estas discrepancias tem sido dada:
Os comportamentos quando agregados alteram-se, eu não ajo da mesma maneira quando em grupo ou sozinho. Correcto, mas considero que tal não explica na totalidade o desvio entre as duas subdisciplinas, que considero mais explicadas(mas não totalmente) pela explicação acima.



Falha de mercado

Um exemplo classico que se utiliza para caracterizar o mercado e os seus equilibros é a analogia da fila do supermercado. Diz a teoria que elas se equilibram automaticamente devido à racionalidade dos agentes envolvidos.
No outro dia verifiquei este exemplo.
Eram duas filas, uma com 15 pessoas à espera, outra com apenas 2. Claramente, segundo a teoria, elas deveriam estar a reequilibrar-se mas tal não acontecia.
O porquê era explicado por uma assimetria de informação: Uma prateleira de produtos estava entre as duas filas para a caixa. As pessoas na fila mais longa desconheciam a existencia da outra fila mais pequena, e não equilibravam.
Pode argumentar-se que se a prateleira não estivesse no meio, as filas seriam iguais. Tal está correcto, mas dado que ainda não existe nenhuma lei que imponha prateleiras entre as filas, então a decisão de a colocar lá dependeu unicamente da empresa que gere o supermercado, que agindo racionalmente e portanto optimizando custos e lucros, decidiu ali colocar a prateleira.
O mercado estava em pleno funcionamento, e o optimo da situação não era eficiente.
Tal atitude da empresa, não faz grande sentido se ela estiver a optimizar:
Menos tempo perdido na caixa = mais satisfação do cliente(maiores lucros potenciais) + menos tempo perdido(menores custos variaveis).
A razão para a existencia da prateleira é então de outra natureza.

Note-se então o argumento, epistemologico, da questão: Se os agentes não forem racionais e portanto optimizadores, podem-se criar assimetrias de informação que deitam por terra o equilibro geral. As leis de Walras falham perante tais assimetrias.
Neste momento estão os fãs da Microeconomia aos gritos:
Pois mas se leres bem os teus livros de curso lês que esses equilibrios se verificam se verificadas utilidades marginais decrescentes, convexas, não saciaveis, comportamento optimizador e a não existencia de externalidades, etc.
Pois bem, este argumento faz-me recordar uma piada contada por uma Professora minha sobre um economista numa ilha deserta na companhia de um amigo e de uma lata de conserva mas sem abre latas. Quando colocado a questão de como abrir a lata ele replica: "Na eventualidade de termos um abre-latas..."

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

curioso...

"Quando todo o ser humano decidir livremente seguir o seu caminho, a Humanidade será iluminada."

Buda

O primeiro socialista da História


Cristovão Colombo

Quando partiu não sabia para onde ia, quando chegou não sabia onde estava, quando voltou não sabia de onde vinha.
E tudo isto com o dinheiro dos outros.

Simbolos e proibições

O Parlamento Europeu considera a hipótese de proibir o uso ou reprodução da cruz suástica em território comunitário, demonstrando assim não só uma falta de principios de liberdade e tolerancia como de cultura.
Para quem não sabe, ou não se lembra, a suástica não é uma criação do Partido Nacional Socialista alemão, sob o qual cometeram as maiores atrocidades conhecidas. É na realidade um dos mais antigos simbolos religiosos remontando à India, sendo que alguns acreditam tratar-se da mais antiga cruz do mundo. Foi, e é, objecto de culto de religiões como o Hinduismo, o Catarismo, tendo sido usada inclusive pelo paganismo celta. Na realidade está para o Ocidente como o Yin-Yang está para o Oriente - representa o equilibrio do Universo e das suas forças.
Surge então a questão:
Se banirmos a suástica, por ter sido erradamente usada por um grupo de governantes, o que impede que se decida banir a cruz romana, objecto de culto cristão, sob o qual inumeras atrocidades foram cometidas pelos povos europeus contra povos dito impuros(Judeus, Islamicos, Pagãos)? O raciocinio é o mesmo: durante as cruzadas assistiram-se a autenticos banhos de sangue em nome duma fé, e dum simbolo...
Ou então porque não banir o crescente, objecto islamico, pelo seu uso dado por fundamentalistas e terroristas actuais?
Com que critério dizemos "este simbolo religioso é bom, este é mau"...?

PS: Já agora, mesmo que a suástica não tivesse esta origem e fosse mesmo criação de Hitler, acham mesmo que censura-la irá enfraquecer os movimentos neo-nazis?

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

Comentários

Passo a transcrever um comentário ao post "Socrates, Platão e vinho do ribatejo", da autoria de Amélia Marta, que não pode ser publicado na secção de comments do post acima referido por questões tecnicas.

" Se bem não me falhou a vista serei a primeira a inaugurar este blog como comentadora. E faço-o de bom grado deixando desde já o elogio se ter criado um blog que foge à ridícula exposição de gifs animados e palavras soltas sem conteúdo. Porque se na realidade o objectivo dos ditos é expor a imagem pessoal, então que o façam de uma forma fiel à mesma, visto que ao passar os olhos por alguns desses blogs não consigo apreender o “self” do criador. Ora este, ao contrário dos demais, parece-me explícito quanto às ideias do seu autor. Se não o conhecesse conseguiria apreender pelo menos uma faceta do seu “self”. E, embora não concordando com as suas ideias capitalistas e direccionadas mais para os números de um país do que para a qualidade de vida individual e grupal dos seus ocupantes que, inevitavelmente, embora a longo prazo, conduziria à tão desejada “evolução” da economia da “Portugalândia”*, não posso negar a sua qualidade criativa.

Como o autor já sabe, a minha vida passa um pouco desviada da política, por isso comento a questão surgida entre copos no Bairro Alto (bairro por ventura o meu). Assim se iniciaram as questões psicológicas e concepções acerca do Homem, com questões discutidas entre grupos fechados, e mais tarde entre pensadores fisicamente distantes (não sei se entre copos, mas quem sabe…).
Esta atitude crítica e reflexiva iniciou-se apenas com a introdução da escrita na Grécia (cerca de 720 a.C). Com ela passa-se de uma sociedade que preserva a uma sociedade que transforma. A energia deixa de ser canalizada apenas para a memorização e transmissão oral e passa a ser possível, através de textos escritos, canalizá-la para transormá-los, criticá-los, analisá-los etc. Começa a evolução, com a dúvida, a pergunta e a crítica. Sócrates (469 – 399 a.C.), discordando dos sofistas, defendia a verdade, a virtude, a dualidade do corpo e da alma e a busca do verdadeiro saber. As suas ideias são realmente conhecidas através das obras de Platão, o seu discípulo pelo que consta.

Pela questão que formaram - Será Socrates uma personagem histórica ou será ele um mero heterónimo de Platão usado para divulgar a sua doutrina?Parece que colocam Sócrates como discípulo de Platão e não o contrário. Pois se é Platão que divulga as ideias de Sócrates, não poderia ser este último um heterónimo, mas sim o primeiro. Seria Sócrates a criar um heterónimo que desse corpo à sua mente. Mas será isto possível? Em tudo eles se assemelham, sobrepondo-se quase não é verdade? De um heterónimo não se poderia tratar... porque na verdade a heterónima, segundo palavras de Fernando Pessoa “é do autor fora da sua pessoa; é duma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu”. A individualidade do heterónimo transportaria uma personalidade distinta, ou ideias possivelmente contrárias… ou mesmo que semelhantes não se sobreporiam de tal forma, pois um heterónimo trata-se de uma personagem criada individualizada e não de um auto-retrato estilo pseudónimo. Seria então Platão um pseudónimo de Sócrates levado a um extremo físico até? Para que desse corpo a um conjunto de ideias inovadoras?

* Portugalândia - Terra onde se governa de fralda borrada e doce na mão roubado ao menino do lado."



Ateus, Gnosticos e Agnosticos

Nas minhas divagações pela blogosfera dei de caras com uma pequena discussão sobre a natureza do ateismo e do agnosticismo, e sendo interessado pela matéria não resisto ao meu contributo.
Etimológicamente ateismo vem de "a theo", ou seja, sem deus. Mas cuidado com intrepertações enviesadas por padrões católicos. Theo era o termo utilizado para designar uma divinidade ou ente superior ao Homem.
Por seu lado o gnosticismo é uma forma de religião iniciatica que preconiza a salvação do Homem pelo conhecimento(gnose - grego para conhecimento). Os gnosticos acreditam no conhecimento como forma de iluminação, e que por ele se pode atingir o dívino. Acreditam também que a responsabilidade ultima das consequencias dos nossos actos somos nós próprios. É um pouco como a Hermeneutica mas sem a "Quimica".
No ponto oposto encontra-se o Agnosticismo, ou traduzindo do grego, sem conhecimento. É a base das religiões de massas como o catolicismo, em que a salvação da alma se processa pela adoração de um divindade, e a entrega a um ideal. A salvação não depende assim de uma iniciação ao conhecimento mas sim duma crença ou fé em algo que se diz omnipotente e o omnipresente, Deus.

PS: pessoalmente identifico-me mais com as teses gnosticas, mas é uma mera questão de crença pessoal de cada um.

Finanças Publicas IV

Num post passado referí um conjunto de medidas a aplicar à função pública, entre elas despedimento colectivo. Fui injusto. Sejamos realistas, nenhum governo o fará, e os resultados práticos serã0 pouco.
Sugiro então a seguinte abordagem:
  • Quantifique-se o numero total de funcionários públicos, o numero total de institutos e serviços publicos;
  • Termine-se com serviços e institutos redundantes;
  • Reorganize-se o sector público, centralizando e partilhando os fluxos de comunicação e acessos a bases de dados;
  • Quantifique-se quais dos serviços que restaram têm falta de mão-de-obra, e quais os que têm excesso de mão-de-obra;
  • Aplicando o principio da mobilidade no trabalho, reorganize-se geografica e funcionalmente a distribuição dos funcionários públicos;
  • Crie-se um quadro de excedentários onde serão colocados os que não foram designados no processo anterior.

A questão final prende-se com o que fazer com o quadro de excedentário, podendo o Estado dar-lhes formação profissional e relança-los no mercado de trabalho.

Domingo, Janeiro 16, 2005

A eterna questão do modelo social sueco: Uma questão de cultura

O modelo social sueco permanece para muitos como o exemplo de como o Estado deve agir.
Com um sistema fiscal progressivo e altamente distributivo, garante a equidade entre os seus cidadãos. Fornece subsidios elevados aos seus desempregados, elevados subsidios de doença ou maternidade. Habitaçao estatal para os sem-abrigo. Ensino Superior gratuito. Saúde gratuita.
Continua a ser objecto de discordia entre politicos e economistas, como é visivel numa acesa discussão em Ordem nos economistas.
É também para muitos, como o nosso engenheiro de serviço, José Socrates, um modelo a seguir.

Eu até concordaria, não fosse o facto de o modelo sueco não ser importavel. A razão é simples, e prende-se com a matriz sociologica dum povo.
Qualquer economista pode com segurança afirmar, e tal o faz o filho de Olaf Palme, PM sueco assassinado em 1986, que um sistema em que se recebe mais por não trabalhar desincentiva ao trabalho. A unica razão pela qual esta regra falha deve-se ao elevado sentido de moral que o povo sueco tem, que faz com que uma Ministra se demita depois de ter comprado um Toblerone com um cartão de crédito do seu gabinete ministerial!
Estamos pertante um povo que confia na sua classe política e não passa pela cabeça da ultima trair essa confiança.
Trata-se pois de uma questão de cultura.

Eu sempre fui contra todas as formas de "social-paternalismo". Sou contra soluções de "Mais Estado para corrigir desvios sociais" porque considero que as pessoas tendencialmente se tornam irresponsaveis. A razão é simples, mais liberdade acarreta mais responsabilidade.
Equidade e Liberdade têm um trade-off mutuo. Onde parar de limitar a segunda para garantir a primeira...?
Veja-se o Estado Novo, onde o Estado se encarregava do bem estar social, suprimindo toda e qualquer forma de liberdade individual em nome de um bem comum. O resultado é uma sociedade como a portuguesa, acefala, que depende demasiado do Estado e sem iniciativa própria, ou citando José Gil, Filosofo da UNL, na sua entrevista ao Público, "uma sociedade infantil sem individuos autonomos".

Porque é que os suecos violam estas regras? Talvez pelo facto de terem passado pelas lições necessárias antes. Antes da subida, em 1933, do PSD sueco ao poder, a Suecia era um país profundamente liberal. Tal criou um sentimento de responsabilidade e civismo que o PSD teve o cuidado de manter. Um sentido de responsabilidade, proprio de um povo, que permitiu que patronatos e sindicatos acordassem a paz laboral, em troca de cedencias mutuas. E tal permitiu ao poder politico actuar.

O modelo sueco, mais do que um exemplo economico, é um exemplo sociologica de uma sociedade avançada e una.
É um questão de cultura.

PS: Outro grande factor a favor da Suécia é a sua estabilidade politica. A Suécia é governada quase ininterruptamente pelo PSD sueco desde 1933. Apenas um país demonstra esta mesma estabilidade: O japão, governado desde a decada de 50 pelo Partido Liberal Democrata, salvo um curto interregno em 1992.

PS2: Não confundir a tese anterior com as teses libertarias. Sou a favor da defesa da liberdade individual, mas não como um valor absoluto em sí mesmo. O Estado deve garantir alguma equidade, mas deve ter atenção ao trade-off, e aos seus efeitos sociais.

Finanças Publicas III

Já contaram o numero de cartões do Estado que têm na carteira?
É um curioso exercicio. Então vou propor outro curioso exercicio, um exercicio de imaginação.
Imaginem que, hipoteticamente, todos nós tinhamos um numero unico de cidação que contivesse todas as nossas informações. Finanças, saúde, registo criminal, registo académico, and so on.
Continuando o exercicio, imaginem que querem requerer uma bolsa de estudo, onde normalmente teriam de apresentar umas 3 duzias de papeis, desde Seg. Social a demonstrações de IRS e/ou IRC. Ao invés das 3 duzias de papel imaginem que entregam o vosso numero de cidadão, e o serviço confirma as vossas informações necessárias. Já viram o tempo poupado? Tanto para o cidadão como para a administração Pública. Já viram o que se poupava em recursos fiscais ao fim do ano, utilizados em tarefas burocraticas?
Obviamente que a nossa informação não deve poder ser divulgada sem a nossa autorização, mas tal é facilmente regulavel.

Numa acalorada discussão política com um colega de faculdade, explanei este meu exercicio, ao que ele respondeu:
"O Estado não tem o direito de centralizar a minha informação"... e sabem que mais? Não tem não. Têm a obrigação. Têm a obrigação de nao me fazer perder dias nos seus serviços públicos, e de não esbanjar as minhas contribuições fiscais em actividades burocraticas, as quais 2/3 são para "consumo interno da maquina".

Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

Caducidade ideológica

O engenheiro José Socrates demonstra o que decidí chamar de "Caducidade ideológica".
Ora vejamos, se à um mês atrás criticava ferozmente o Ministro das Finanças Bagão Felix por estar a atentar contra a classe média com o fim dos benificios fiscais em sede de IRS, agora vem dizer que manterá tudo como está em nome da segurança fiscal.
Faz lembrar o seu "Mentor", o também engenheiro Guterres, que nos tempos de oposição a Cavaco Silva era a favor da despenalização do aborto, assumindo uns anos mais tarde a posição contrária.

PS: Há quem chame à Caducidade de ideias simplesmente contradições. Deixo a escolha de nomenclatura ao leitor.

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

Socrates, Platão e vinho do Ribatejo

Gostaria de partilhar aqui uma interrogação discutida por um grupo de amigos ao sabor dum vinho do Ribatejo no Alfaia, Bairro Alto:
Será Socrates uma personagem histórica ou será ele um mero heterónimo de Platão usado para divulgar a sua doutrina?
Comentários serão bem vindos.

PS: Refiro-me ao filósofo, não ao engenheiro. Sobre o ultimo falarei quando para tal ganhar a paciência necessária.

Finanças Públicas II

Após diversos comentários, uns escritos outros proferidos, sobre Cicero deixo aqui algo de mais concreto, e mais actual e cientificamente correcto:

- Redução do peso da Função Pública no PIB
Que a função pública é despesista e ineficiente toda a gente sabe. Que ela consome desnecessariamente recursos do Estado também todos sabem.
Ganham em média mais do que no privado sendo actualizados quase que anualmente, não respondendo perante as mesmas regras de emprego que o privado. Temos que admitir que do ponto de vista de sistema de incentivos ao trabalho, o sistema actual não incentiva muito ao mesmo.
Passo a dar o meu contributo, modesto, à matéria:
- Congelamento de entradas de novos funcionários;
- Fim à progressão automática de carreira;
- Aplicação do sistema de incentivos do sector privado, sintetizado na frase "Não trabalha despede-se";
- Diminuição real dos salários médios;
- Despedimento de uma percentagem dos funcionários públicos, nomeadamente os mais novos, pois seriam mais aptos à reinserção no mercado de trabalho, indo no medio prazo depender menos dos sistemas de Solidariedade e Segurança Social.

PS: Para todos os que aqui e no ISEG me irão "bater" por este post, por favor dispensem o argumento classico do neo-liberalismo.

Trapalhadas

Tudo começa com um mergulho de um Ministro.
O Primeiro-Ministro não sabe de nada mas sente-se incomodado e acha mal.
O lider da oposição, enquanto mergulhado nos problemas do país vê-se confrotado como o mergulo do Ministro, não o achando digno da seu comentário.
O Ministro-Mergulhador do Governo demitido pede ao Primeiro-Ministro demissionário a demissão do cargo do qual já tinha sido demitido.
O Primeiro-Ministro demissionário reitera a confiança no Ministro demitido que pediu a demissão, não antes de dizer que não sabia que o Ministro tinha ido a S.Tomé e Principe tratar de uns negócios de uma empresa petrolifera privada de nome Galp.
O outro Ministro demitido que tutela a Economia diz que também nao sabia de nada sobre um negócio mediado pelo Estado.
O Ministro-Mergulhador diz que recebe uma mensagem confidencial do Primeiro-Ministro do Governo demitido para tratar do negócio da empresa petrolifera privada da qual nada sabia.

Mais uma trapalhada do Governo de Santana Lopes ou o guião de uma nova novela da TVI?

Domingo, Janeiro 09, 2005

Finanças Públicas

"O orçamento nacional deve ser equilibrado.
As dívidas públicas devem ser reduzidas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada.
Os pagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos, se a nação não quiser ir à falência.
As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública."

Marcus Tulius Cícero,
Roma, 55 a.c.

Eleições e maiorias

Depois de ver o "Expresso da Meia-Noite" especial com Jorge Sampaio devo dizer que fiquei surpreendido, pois nunca pensei que do Dr. Sampaio fosse capaz de um discurso limpo e directo em português mas adiante. O que realmente me surpreendeu foi o seu discurso(de Sampaio) e a resposta da maioria dos partidos com assento parlamentar no dia seguinte.

O primeiro insiste em tentar ficar bem com Deus e com o Diabo. Se por um lado dissolve uma maioria estavel(e embora nao fosse apoiante de Santana e criticasse o seu modo de fazer politica, "fait divers" à parte havia uma maioria estavel) por outro exorta à modificação da lei eleitoral para um sistema que seja mais favoravel à criação de maiorias parlamentares... N me entendam mal, concordo perfeitamente, e sou adepto dum sistema de circulos uninominais com 1 circulo proporcional nacional, mas tendo em conta os antecedentes discursivos do senhor, à que ficar surpreendido.

Os segundos criticam Sampaio for falar em lei eleitoral em época de eleições. Peço desculpa mas não é em época de eleições que se deve discutir todas as ideias do partidos, inclusive aquelas pertinentes à organização política do Estado? Ou será a discussão de ideias um vão sonho de utópicos democratas?

Quinta-feira, Julho 22, 2004

Santana Lopes e Governos pequenos

Embora filiado e militante activo do PPD/PSD não sou "Santanista". Sou inclusive critico dos seus inumeros exemplos de gestão pública das Camaras de Lisboa e Figueira da Foz. Não concordei obviamente que ele fosse a melhor opção do Partido Social Democrata para substituir Durão Barroso.

Aquando da indigitação, por parte do Conselho Nacional do PPD/PSD, de Santana Lopes para ser o nome do partido para ser nomeado, de acordo com a constituição, Primeiro-Ministro(e não, não estou a dizer que o Conselho Nacional do PPD/PSD nomeia os Primeiros-Ministros da nação, apenas o faz quando o Partido vence eleições legislativas.), Santana anunciou um Governo mais pequeno.

Confesso que a determinada altura tive esperança. Sá Carneiro também teve os seus momentos menos bons mas quando chegou a Primeiro-Ministro soube pôr o País acima do Partido e das suas ambições e vicios pessoais. E aguardei, que nem S. Tomé, o elenco governativo. Contas feitas são 19 Ministros, 38 Secretários de Estado e um sem numero de futuros "aspones"(brasileiro para "assessor de porra nenhuma"). Bem visto, o problema nem é o numero de Secretários de Estado, simples consequência do verdadeiro problema, o numero de Ministros. Será que não há consciência que 19 Ministros para um país como Portugal é Ministro a mais, e que tão grande numero só surge em virtude de clientelismos partidários e amizades?

Santana Lopes foi nomeado pelo Presidente da Republica Jorge Sampaio Primeiro-Ministro para garantir a estabilidade governativa do país, tendo em conta que a Assembleia ainda proporcionava uma solução estavel. Tal decisão tinha por detrás uma premissa tão básica que se resume ao facto de este Governo servir para dar continuidade ao anterior(quer se concorde ou não com a politica anterior, tal está fora de questão, e não puxem o argumento das Europeias onde 2/3 do povo português não se pronunciou!). Ao invés disso temos um governo que vai demorar pelo menos 3 a 6 meses a entrar em plena actividade pois mudou-se ministerios(desagregaram uns quantos, criaram outros, sem qualquer nexo racional)e colocaram-se pessoas em pastas sobre as quais nada percebem.

O Povo diz que "O que começa torto, tarde ou nunca se endireita". O Povo diz isso e com razão. Este Governo começa mal e promete acabar ainda pior. Desejo, para o bem do País, que me engane!

PS: Peço desculpa pelo lapso. Durão Barroso já não é Durão Barroso mas sim José Manuel Barroso, hoje eleito Presidente da Comissão Europeia pelo Parlamento Europeu. Como as coisas mudam quando se muda de cargo.


Alas esquerdas

Noticiou-se hoje em definitivo a candidatura de Manuel Alegre ao cargo de secretário-geral do PS. Nas palavras do próprio a candidatura "é para ir até ao fim". Esta candidatura espelha o descontentamento da ala esquerda do PS com o nome de José Socrates, candidato que descaracterizaria o PS "laico, republicano e socialista".

O PS não para pois de me admirar. Ora senão vejamos...
Começa por apostar o tudo por tudo numa dissolução, para bem da democracia, ignorando a incoerência que tal seria para Jorge Sampaio. Ignoram, ou querem parecer ignorar, que nunca um presidente em perfeita sanidade mental iria entregar a responsabilidade governativa a um partido que namora a extrema-esquerda trotskista de Francisco Louçã.
Quando tal aposta falha, o secretario-geral cessante demite-se, em pose de "birra", caracterizando o facto como derrota politica pessoal. Assiste-se a uma Ana Gomes no seu melhor estilo, exaltada como mandam os canones da "esquerda revolucionária" (alguém que a informe que tal esquerda está morta sff...).
Como se não fosse suficiente, apegados a uma formula gasta, recusando a viragem ao centro e à moderação, um grupo de ferristas(alguem me explica em que consiste o ferrismo, descontando o típico clientelismo partidário?) buscam a solução do PS numa figura fora de época. Não que eu não respeite Manuel Alegre. Dou-lhe o mérito que merece mas o seu tempo passou, o 25 de Abril já lá vai e a "geração de coimbra" está morta.

Termino com uma única questão aos socialistas por esse país fora:
É esta a solução política credivel de um partido com vocação de poder que dão ao País para o seu desenvolvimento?

Segunda-feira, Julho 19, 2004

Definições e orientações

Antes de começar qualquer reflexão julgo essencial que se defina antes as bases do qual essas reflexões surgem... ou seja, que se defina a minha orientação política, social e económica.
Antes demais sou um pragmático. Não acredito por isso em soluções ideais e utópicas, acredito em soluções práticas que produzam resultados visiveis.
Sou também um conservador liberal. Aparente paradoxo? Não, e passo a elaborar.
Acredito no liberalismo e na democracia. Não tenho tendências reaccionarias de regresso a acien regimes nem de regresso aos supostos "bons tempos" do "homem trabalha e a mulher fica em casa" e afins... Simplesmente não acredito na mudança por mudança. Se é para mudar, sendo um pragmático, que seja para lugar melhor. Se é para reformar que seja com sentido e objectivo, que se faça um balanço de prós e contras dessa mudança e que o balanço seja positivo. E, mais importante para mim, que a mudança seja efectuada de modo gradual, pacifico, ou seja, de modo não revolucionário. Não acredito nelas, as revoluções, considerando-as nocivas para o tecido social. Acredito em transições e reformas feitas de forma calma, racional e coerente.
Tenho pois uma visão um pouco organicista da sociedade, uma visão caracterizada pela convicçao que o social é um intricado pano de relações e contra relações de grupos que opondo-se ou aliando-se geram equilibrios. Tal visão sustenta a minha posição contra as revoluções, mas reservo tal reflexão sobre as mesmas para futuro post.
Considero-me um homem do centro politico, moderado e aberto. Sim acredito no centro politico, reformista por natureza, moderado por necessidade, congregando as diversas influências do centro-esquerda e centro-direita.
Economicamente sou muito proximo da visão neo-keynesiana do Estado regulador e corrector dos desiquilibrios da Economia. Acredito na intervenção do Estado onde ela se justifica, como por exemplo para por fim a monopólios. Acredito, como liberal, na necessidade de protecção social de modo a permitir a completa realização da pessoa humana. No entanto vejo como vector essencial à protecção social a responsabilização de quem dela depende. Identifico-me com a visão "Cada um trata de sí, o Estado trata de quem não pode".
Vejo a necessidade de um Estado forte mas agil, não a maquina pesada e burocrática actual herdada de periodos de socialização por parte do Estado. Um Estado que regule mas não intervenha demasiado na vida privada e individual, um Estado que não tenha complexos de se associar ao sector privado para a resolução dos problemas, pois há coisas que o privado fará tão ou mais eficientemente que o Estado.
Sou economicamente europeista, politicamente euroceptico, pois considero que a Europa politica ainda não é possivel, muito menos no modelo actual. Não acredito na existência do "cidadão europeu". Considero que tal termo nao passa de uma figura de estilo, nao existindo um "cidadão europeu" mas vários cidadãos das nações europeias. Como tal não concordo com a federalização da UE, nem com as "políticas do directório".
Não concordo nem com uma visão puramente atlântista ou puramente europeista, considerando uma visão mais globalista, virada para as comunidades portuguesas no exterior, com um aumento da relevancia da CPLP no mundo como principal vector.

Considero que tal descrição será suficiente, senão mesmo para alguns massuda, e que atingi o meu objectivo:
Definir os meus pontos de partida ideológicos de modo a garantir uma melhor compreensão das minhas reflexões.




Despertar

Desperto tardiamente para o fenómeno do blog. Já há muito tempo que pensava em criar mas apenas hoje passei do pensamento à acção. Espero por este meio conseguir acrescentar algo de util aos debates crescentes na blogosfera, com um conjunto de análises e desabafos próprios de um jovem perto dos 20 anos altamente politizado e critico...
Nada mais tenho a acrescentar senão a esperança de qualquer aspirante a estas andanças, a esperança de ser lido e apreciado.